09 Março 2006

A morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança duma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”

Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.


Manuel Bandeira, Lira dos Cinquent’anos (1940)

08 Março 2006

Últimas palavras, 1

— As últimas palavras dele foram para mim, imagine.
Não me diga.
— É verdade.
Triste, não?
Triste e no entanto honroso.
Claro, claro, uma grande distinção! E que lhe disse ele na hora do estertor, posso saber?
— Disse-me…bem, foi um pouco enigmático…disse-me…
Sim?
— …que era de mim que ele mais gostava, desde o princípio, e que queria dar-me um conselho. O conselho, esse, é que foi algo enigmático…
Como assim, enigmático?
— Num último sopro, segredou-me: «Para entender o tigre, volte-se para Oriente. Não se esqueça…para…Ori…ente.» E expirou, muito sereno.
— O tigre?
Julgo
perceber a alusão. eu, aliás, a posso perceber. Mas para Oriente, porquê para Oriente?

Últimas palavras, 2

— …e foi a mim que ele reservou as suas últimas palavras.
— A si?!
Estranho, não é?
Muito.
— E mais ainda o que me disse. E mais ainda o sorriso com que o disse.
Mas disse o quê, afinal?
isto: «Era de si que eu mais gostava. Faça sempre assim como fez. Venha depois, sempre depois, e seja sempre anterior. Anterior…ao anterior. Ouviu?» E expirou, muito sereno, sorriso nos lábios, julgo que era um sorriso.

Últimas palavras, 3

— E fui eu o último com quem ele falou.
— Foram para si as últimas palavras?
— É verdade. Muito inesperado.
Que privilégio!
Obrigado. Falou pouco, foi muito breve, brevíssimo.
— Conte, conte.
Quase em surdina, disse-me apenas isto: «Foi de si que eu mais gostei. Deixo-lhe o mais importante…deixo-lhe o meu último superlativo. Guarde-o bem.» E expirou, quase imperceptivelmente.
— Guarde…? Mas guarde o quê?
Você ouviu. O último superlativo. A herança, portanto.

Últimas palavras, 4

Nunca esquecerei as suas últimas palavras.
— As últimas? Foi a si que ele as disse?
Claro. A quem havia de ser?
Pois
— Começou, aliás, por me tirar as poucas dúvidas que havia: «Entre todos, era de ti que eu mais gostava.» Assim, textualmente.
Pois
— E acrescentou, antes mesmo de entregar a alma ao vazio: «Tu eras perfeito nos teus caminhos.» Logo depois, o silêncio. Definitivo.
Pois

Últimas palavras, 5

(chorando) …e foram tão bonitas as suas últimas palavras!...

— Vá , acalme-se. Teve a honra de lhe ouvir as últimas palavras, então?

(suspirando) Tive, tive. E foram tão bonitas. Tão bonitas…

Mas diga quais foram, diga !

muito fraquinho segredou-me: «Nem preciso de dizer que era de si que eu mais gostava.» (rompe a chorar de novo)

isso?... Vá , acalme-se.

(suspirando) Ele quis explicar-me porque era eu a escolhida, mas ouvi qualquer coisa de incompleto. isto: «…alguma rua, alguma torre, um trecho de praia, e era toda alegria» E depois(rompe num pranto interminável)

Últimas palavras, 6

— As últimas palavras, as últimas palavras.

Sim, sim, mas quais, quais?

— Garantiu-me, com a voz a sumir-se: «Foi de si que eu mais gostei, sabe?»

— E depois morreu?

Não. Primeiro, abriu muito os olhos e disse: «Sabe, às vezes as casas morrem meninas…» E foi tudo.

— As casas?...

Últimas palavras, 7

Nem acredito que lhe ouvi as últimas palavras
Mas
Não, não, asseguro-lhe que foram as últimas! Eram últimas por natureza!
Como assim?
— Fez uma pausa depois de me dizer com simpatia: «Foi de si que eu mais gostei, meu caro.» E depois da pausa, arfante: «Para si, a suma das sumas, o resto dos restos» E as pálpebras desceram-lhe lentas sobre os olhos.
Que dramático!
— A prova de que falava para mim, não apenas comigo. Como sempre, aliás.

Últimas palavras, 8

Bolas, nem acredito que ele me disse aquilo antes de morrer!

Mas o que é que ele disse?

— Olhe, disse-me : «Quando isto acabar, veja se janta bem e vá ao teatro. Adeus.» É preciso ter lata!

Fogo-de-artifício 9 (reprise nocturna)

LM – Um silvo a cortar o ar frio da noite!
GR – Já viu, Clara, como o fogo sobe no ar!
CA – Já viu, meu querido Rubim, como a luz anuncia a chegada do som!
ABB – Lá no alto, chispas coloridas numa campânula de luz!
OMS – Uma tremenda expansão de energia contida!
PS – Depois um estouro, e depois outro, e outro, e outro, um rumor de estampidos.
FMO – Brancas, vermelhas, amarelas, azuis, as lágrimas cintilam em arcos de luz.
LQ – Um breve brilho brilhante bruxuleia.
MP – E as cinzas beijam o orvalho que as espera no chão.

Stadium




- Acenda aí, Groucho. Hoje acompanho-o.
- E aqui neste digestivo?
- Uma vez sem exemplo, mas sim.
(fumam e bebem)
- Grande adrenalina, não foi?
- E eu que nem sequer sou benfiquista.
- E tudo perfeito, não acha Mourão?
- Ah, estava a ver que nunca mais deixava o Sr. no tinteiro, Groucho!
- Hoje aprendi muito, amigo Mourão. Foi cá um dia! Mas você sabe, claro.
- Sabemos todos. (pensativo) Sabemos todos.
- E se quer que lhe diga, também um perfeito exemplo do porquê da produtividade nacional ser o que é!.. (riem ambos)
-
Mas ó Groucho, bem sabe que a criatividade não tem esses horários. Nós somos gente de passar os fins-de-semana a queimar pestanas e...
- Pronto, deixe lá isso, não era propriamente uma crítica.
- Claro, onde é que eu tinha a cabeça? (fumaça mais funda) Há muito tempo que não fumava!..
- Você é um bocado ascético, hein, Mourão?
- Isso era uma longa conversa... (pausa) Por falar nisso, aquilo lá por baixo é vivível, ou é mais como o Silvestre diz aí há uns posts atrás?
- Hum... Nem uma coisa nem outra, Mourão, antes completamente diferente. E mais não consigo dizer.
- Coisa só de experiência feita, estou vendo.
- De facto não está vendo, mas sim, é isso.
- E vai voltar de vez em quando, como agora?
- Não. Estou em trânsito, mas logo logo partirei de vez.
- Hum... E vai ainda, como dizer, despedir-se dos outros casmurros?
- De cada um à maneira de cada um.
Pausa. Groucho expele uma grande fumaça em arco, ficam os dois olhando e sorrindo.
- Aquele golo, Mourão...
- Pois...
- E tudo perfeito, reparou? O azar altíssimo dos ingleses, aquele Gerard enorme...
- E o público, que me diz daquele público? Aqueles cânticos logo depois da sentença do segundo golo, aquela nobreza...
- Um arrepio.
- Um estremecimento.
Fumam, bebem.

Horror

Andrés Serrano, “Klans man (Knight I Lawk of Georgia of the Invisible Empire III)”, 1990.
- Mas então, na sua opinião Sr. Serra, esta obra do fotógrafo Andrés Serrano...
- Sim, sim Sr. Serra, pode ajudar-nos a distinguir o que podemos chamar um ironista petit maître de um nível superior de ironista.
- Como assim?
- A obra do fotógrafo Andrés Serrano expõe – ou, digamos, torna visível – que o ironista petit maître acaba sempre por “esconder” um moralista.
- Este Andrés Serrano é cá dos meus.
- E dos meus, mas há poucos, demasiado poucos, muito poucos mesmo. Andrés Serrano interessa-se como eu pela arte, que é sempre coisa dos vivos.
- Quer também então dizer, Sr. Serra, que o “Knight I Lawk of Georgia”, ironista petit maître, é face da morte, que é o que o Vázquez Montalban dizia ser, por exemplo, a culinária?
- Enfim, Sr. Serra, quer dizer que, e não veja nisto um desdizer, que o que interessa é a vida que esconde essa bela face da morte. E, entretanto, que o poder está sempre nas mãos de um petit maître.
- Um horror, Sr. Serra.
- O horror, Sr. Serra, o império invisível do horror.

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Sempre li que, ao chegar-se cá, percorria-se um túnel cada vez mais iluminado e, quando enfim atingido o outro lado, um gozo inefável tomava conta de nós. Mas afinal não é nada disso. É assim como estar a assistir ao 10 de Junho pela TV: discursos, pianadas da Maria João Pires, discursos, poemas patrióticos ditos por actores do D. Maria II, medalhas, almoçaradas num grande pavilhão para uns centos de cidadãos – e todo o povo na praia…
Há coisas mais entusiasmantes, com franqueza. Até porque nem há ninguém a quem pedir que fique comigo esta noite. Ou melhor, haver há, mas é tudo gente entre o transparente e o translúcido. A Sharon Stone, aqui, bem podia descruzar as pernas que só suscitaria o bocejo geral. Porque vê-se tudo, através de tudo. Uma versão não-ideológica do Panopticum. O céu é o Panopticum e eu já li todos os livros...
Falta por aqui um pedacito de dialéctica - da negativa, de preferência. Falta a resistência dos materiais. Falta mundo. Falta-me o Desportivo de Chaves. Não é que não haja gente simpática. Mal cheguei, a Irmã Lúcia veio trazer-me um chá de limonete. Delicioso, muito simpática e sorridente, mas a conversa, santos deuses (bem que o posso dizer…)! A azinheira, a senhora tão linda pendurada em cima dela, os segredos, a bela vida no convento, as saudades da horta… Quase senti saudades daquela cáfila lá do clube. Como é possível?! Irra! Nunca se está bem, é o que é.

(Já agora, alguém aí de baixo me pode dizer como vai o jogo do Benfica? É que eu sou do Liverpool desde pequenino…)

HIPER EXTRA! HIPER EXTRA!

O Groucho está no pé do Simão!
vocês viram aquilo, carago? e eu sou completamente azul, que não haja dúvidas acerca disso, mas vocês viram aquilo, carago? lembram-se de como o Groucho fumava? daquele modo de fazer o arco? ficava numa ponta do clube e mandava o fumo pelo janelão do meio, lembram-se? as volutas, os ornamentos, a leveza, a poesia? vocês viram aquilo, carago?

(viram sim senhor, que ninguém postou desde os dez minutos iniciais — isto sim, é um clube de cavalheiros sem pachorra para aquele cujo nome não devemos pronunciar!)

Mais menoscabo?

—Isto não está a ficar um bocado parvo?
— Muito parvo, acho eu...
— Vá lá, cite lá o Drummond, qualquer coisa...
— Aí vai:
Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito.

—Gaita, isso não, ainda nos fecham a loja! Mas que menoscabo é este?

(Muitas gargalhadas.)



SUPER EXTRA! SUPER EXTRA!

Groucho era a alma de Alberto João Jardim!
Está parcialmente desvendado o mistério do desaparecimento de Groucho. Habitou a alma de Alberto João Jardim até à recusa deste em desfilar no último carnaval madeirense. Regressado dos mortos risíveis, tentou ainda enfiar-se num canto da alma daquele cujo nome não devemos pronunciar, mas o caminho era estreito e seco, e tudo indica que tenha perecido no insano intento.

ler mais desenvolvimentos aqui

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Porquê o nada e não o ser?
A interrogação (a aflição?) percebe-se melhor por exemplos:

Porquê o nada e não a Inês Pedrosa?
Porquê o nada e não o Mourinho?
Porquê o nada e não o Mantorras?
Porquê o nada e não o Abrupto?
Porquê o nada e não o Marques Mendes?

Não seria assustador, um mundo com tais nadas?

Eu, Groucho, tenho saudades do tempo em que não era nada.
Ser casmurro é isso: não ser nada.
Lutar para não ser nada.
Apenas um risco no ar.
Melhor que nada.

Ars moriendi 2



- Isto hoje é tudo uma questão de especialistas. Aliás, o Sr. Serra até já esteve na morgue.
- Mas o Groucho…
- Lembra-se de Six Feet Under? Apesar de tudo, a morte era já cenário.
- Mas o Groucho…
- O que o Sr. pode fazer, com mais proveito, é tratar da vidinha.
- Mas o Groucho…
- Digo-lhe mais: consulte o relógio da morte . Cuide especialmente da sua massa corporal.
- Mas o Groucho…

Cadáver no Lima

Apareceu a boiar no Lima o cadáver de um homem que viria a ser identificado como João Maria da Purificação Silva, 65 anos, natural de Celorico de Basto e tudo indica que sem residência fixa. Não apresentava sinais de violência, e o rosto exprimia uma inusitada placidez para um morto por afogamento. Na altura da descoberta do cadáver, não se chegou a averiguar com certeza quem, de entre os curiosos espalhados pela margem do rio, terá exclamado: “Groucho?!” Alguns dos presentes apontaram um professor de Viana, mas este negou veementemente conhecer o morto. Só não explicou o que andava por ali a fazer, causando assim estranheza, visto não ser pescador nem poeta.
A Polícia Judiciária não sabe se a morte se deveu a acidente, a suicídio ou mesmo a homicídio. Esta última possibilidade emergiu depois de ter sido descoberta e despegada das costas do casaco do morto uma página manuscrita ali presa com um alfinete de ama. Ei-la:

“Esta aventura acaba aqui. Começámos muitos, depois ficámos mais, depois ficámos menos, voltámos a ser mais. Fizemos o que pudemos, e agora estamos prontos para coisa nenhuma. De qualquer modo, continuamos por aqui. Atentos, atentíssimos. Mas a blogosfera estará segura enquanto a Inês Pedrosa e a Clara Ferreira Alves estiverem fora dela. Parto confiante e descansado.”

A PJ está convencida de que João Maria da Purificação Silva, que se averiguou ter pouca instrução, não pode ter escrito isto.

Groucho in Wonderland

































- Elvis?
- Sim?
- Está ali um outro.
- Mais um?
- Sim, mais um. Também enviado pelo Greil Marcus.
- Mas já não mandaste dizer a esse gajo que a casa está cheia que nem um ovo?
- O que queres?!... Esse tipo acha-se o dono da tua vida, sobretudo a post mortem.
- E quem é este? E donde vem?
- Um Groucho. Vem da Lusolândia.
- Tocam por lá guitarra, se não me engano…
- Sim, mas não é eléctrica. E não dizem tocar mas tanger.
- E dá pra dançar, com essa guitarra tangida?
- É mais pra chorar.
- E porque vem ele para aqui? Não podia ficar por lá, numa das nossas filiais? O palácio do Variações, sei lá.
- Acho que é tipo um tanto preconceituoso para Variações. E parece que quer sair de lá, sem falta, até à meia-noite de hoje.
- A noite dos mortos-vivos, é?
- Meia década disso, parece, contando a partir da meia-noite. O Georges Romero já lá está, em rodagem contínua.
- Coitado, também é demais. Não menoscabemos o homem. Trá-lo cá então. E põe aí a vitrola a tocar. Sempre quero ver se o gajo sabe dar às ancas.
- OK, é pra já.
- Espera! Esquecia-me! Traz os burgers e os donuts. E coke. E duas linhas. E o meu fato preto com lantejoulas. Esse lusitano exilado vai ver o que é mesmo viver em Wonderland… Vamos-lhe cortar as saudades pela raiz.
- Dizem que é impossível, com aquela malta. Só dando-lhes bacalhau cozido com couves a toda a hora.
- Também diziam impossível a eleição do nosso George para a presidência, não te esqueças… Põe lá a música e traz o gajo.

Ars moriendi 1


- Repare que a morte é um problema dos vivos.
- Mas o Groucho …
- Para o morto, o mundo simplesmente desaparece.
- Mas o Groucho…
- E não me venha com fantasias sobre a imortalidade, por favor.
- Mas o Groucho…
- Isso é coisa de crianças, artimanha muito usada para esconder a irreversibilidade da morte, assim com quem diz: «O avô está no céu».
- Mas o Groucho…

EXTRA! EXTRA!

Fontes geralmente bem informadas asseguram que o Groucho — vulgo mordomo, vulgo aquela tendência marxista do mesmo nome, vulgo qualquer coisa assim — aceitou integrar a equipa da casa civil do Presidente da República, o tal cujo nome não devemos pronunciar.

Para o efeito, sujeitou-se a um processo completo — inquestionavelmente completo — de morte bloguística. Renascerá incognito nas suas novas funções.

Alento, pois, bom povo, pode ser que tudo aquilo ainda venha a ruir antes do tempo!
Ou — nem sei bem o que será melhor, quer dizer, pior — pode até acontecer que aquele cujo nome não devemos pronunciar seja inoculado de riso grouchista e a presidência entre em menoscabo.

(Ah, como é belo o paraíso visto pelas lentes de um post!)

Última piada, o menoscabo

— Consegui falar agora com o Serra sobre essa coisa de ele trabalhar na morgue. Fiquei muito impressionado...
— Ah sim? E porquê?
— Imagine que ele me disse que, à noite, depois de fotografar cadáveres, dez por noite, se senta a um canto e conversa com Deus longas horas... Que coisa, hein? Que privilégio!
— E não lhe ocorreu que ele seja um grande mentiroso?
— Mas que menoscabo é esse? Deus que sabe tudo ia passar horas a falar com um mentiroso?

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Viana do Castelo, 08 Mar (Lusa) – Acaba de nos chegar às mãos um documento, bastante revelador, respeitante ao crime do Bairro Operário ocorrido ontem em Viana do Castelo. Extraído da arca encontrada na Rodoviária, pertença do enigmático habitante do 3º andar, o texto integra um grosso envelope assinado «Gr.», que, segundo a nossa fonte, consiste unicamente em entrevistas.
A que passamos a transcrever, em rigoroso exclusivo, teve lugar em Gaza, na zona de Na-Nuseirat, no passado mês de Dezembro, com o então ministro-sombra do Hamas encarregado da pasta dos bombistas suicidas (o Sr. Omar El-Mukhtar foi entretanto indigitado como futuro Ministro dos Bombistas Suicidas). Cremos que se encontra truncada, mas o remanescente é um documento cuja importância o leitor imediatamente intuirá, razão pela qual o publicamos na íntegra.

«Inch’Allah!, digo, com um certo alívio, mal me tiram a venda, após a viagem de carro e o percurso subterrâneo no bunker em que visivelmente me encontro. Habituo os olhos à luz, ainda que eléctrica, e reconheço Omar El-Mukhtar, companheiro de outras jornadas, que avança sorridente para mim. Abraço longo e sentido. É-me oferecido um chá, sentamo-nos numas cadeiras austeras e gastas, ligo o gravador. Começamos.
- O Hamas reconheceu o mérito da sua actuação como ministro-sombra, promovendo-o a ministro do futuro governo. Há alguma curiosidade, quer na Palestina quer na comunidade internacional, sobre os efeitos que o poder venha eventualmente a ter sobre a sua actuação. Por outras palavras, o que vai mudar na sua actuação, assim que for empossado como ministro?
- Mas por que é que isso haveria de trazer alguma inflexão à minha actuação? O panorama geral mantém-se, pelo que a nossa linha de acção não pode nem deve sofrer alteração.
- Em todo o caso, os meios à sua disposição serão agora outros.
- Essa poderá ser a grande novidade, já que a falta de meios foi desde sempre a nossa grande limitação. Por isso, aliás, inflectimos tão pronunciadamente a nossa praxis no sentido da «bomba humana». Não dispondo de meios materiais, dispomos contudo de meios humanos…
- Percebo. Não se tratou tanto de uma decisão premeditada à la longue, mas de uma espécie de último recurso. Razões de força maior.
- Nem mais. É certo que, entretanto, o grande sucesso dessa estratégia levou-nos a convertê-la no nosso meio de actuação por excelência. Lançar bombistas para cima da mesa de negociações, se me faço entender…
- E como… Mas satisfaça a curiosidade do público europeu, se é que o pode fazer sem violar os segredos da vossa «inteligência». Em quantos departamentos se encontra organizado o Ministério?
- Com certeza. Somos um Ministério com paredes de vidro. Dispomos de três departamentos, coincidentes, no futuro governo, com três Secretarias de Estado. Por ordem hierárquica, a primeira é a Secretaria de Estado para a Teologia do Bombismo Suicida. Trata-se de, por meio de consulta permanente ao nosso Conselho Teológico, saber da legitimidade ou não dos ataques que nos são sugeridos pela estrutura do movimento.
- Foi-me dito que o Hamas funciona numa democracia orgânica tão perfeita que qualquer membro pode propor um alvo. É exacto?
- É exacto. Só que a proposta tem de vir acompanhada da devida documentação: mapas, descrição dos alvos, objectivos a alcançar e, naturalmente, descrição minuciosa da operação proposta. Parece complicado, e de facto exige trabalho, mas dispomos de formulários de preenchimento relativamente fácil. Ademais, criámos um gabinete de ajuda aos cidadãos menos letrados ou com dificuldades em qualquer das áreas indispensáveis a uma proposta consistente. Só depois de a proposta ser tecnicamente aceite é que sobe ao Conselho Teológico. Este, após consulta minuciosa do Livro e da sua exegese, decide. A decisão do Conselho Teológico não é passível de recurso.
- Segue-se então a Secretaria de Estado…
- … da Tecnologia Revolucionária. (Com um sorriso cúmplice:) Chamamos-lhe, entre nós, «departamento de fios e pavios…». (Riem os dois com gosto)
- Sei que é um sector famoso pelo seu conservadorismo teconológico…
- Sim, sim, só é revolucionário na sua determinação em expulsar o infiel sionista. A verdade é que, após anos de experiências, chegámos à conclusão de que as soluções low tech, para além de serem as que melhor se coadunam com as nossas limitações orçamentais, são as que melhor funcionam. Simples, curto e grosso, se me faço entender…
- Perfeitamente, perfeitamente. Passemos então à última Secretaria de Estado, que é a da…
- … Exportação de Recursos. Dado o seu crescente sucesso no mercado internacional, é a que nos permite verdadeiramente manter toda a máquina operacional a funcionar.
- Há então uma grande procura dos vossos produtos no mercado internacional?
- Não imagina! Para dizer a verdade, não conseguimos satisfazer todos os pedidos, pelo que já há uns tempos funcionamos em subcontratação, delegando contratos a outras empresas do ramo (contra uma percentagem do lucro, bem entendido). Sobretudo empresas do Egipto, da Síria, do Paquistão, do Afeganistão e da Arábia Saudita. E do Iraque, claro, neste momento o nosso maior importador.
- E que tipo de bombista é o mais requisitado no mercado?
- Mulheres, sem dúvida alguma. Passam mais facilmente despercebidas, percebe? Mas isso coloca-nos grandes problemas, pois os nossos princípios educativos não favorecem a saída das mulheres de casa. Há aqui um real conflito entre as mais-valias do mercado e o fundamento ético-jurídico da nossa sociedade, que estamos a ter dificuldade em ultrapassar. Ultimamente, começámos a usar homens disfarçados de mulheres, de modo a contornar as dificuldades de recrutamento. Mas é complicado, pois os clientes não apreciam, e baixam logo o preço, e os membros do movimento ainda apreciam menos ter de vestir-se de mulheres e falar com voz adelgaçada… Como vê, esta é uma pasta especialmente delicada e pouco invejável…
- Eu, seguramente, não lha invejo, garanto-lhe…»

OMS

Lusa/Fim

O morto, com menoscabo

— Bom dia!
— Bom dia! Faz favor…
— Eu queria… posso tratá-la por tu? Desculpe a ousadia, mas facilita muito o que lhe vou pedir…
— Claro que sim, adoro que me tratem por tu. Mas não fique já a pensar que digo isto a todos os que aqui vêm…
— Acredito… que adora e que não diz. Mas sem familiaridades, está bem? Não vá já imaginar coisas, que sou um ansioso, ou um atrevido, ou coisa assim. As mulheres abusam muito das interpretações precipitadas, saltam para cima das conclusões, como dizem os americanos. Quando não é para cima dos homens… Não quero que abuse da minha disponibilidade… e sabe que lhe noto olhos de abusadora? Não no sentido habitual, hoje corrente, mais o que no Norte chamam uma besunta. Não que… não que não sejam lindos, os olhos. Lindíssimos, aliás… olhe aqui para a luz... Isso... Com efeito, lindíssimos. E o pescoço, caramba! que belo pescoço… digno do busto, sóbrio, elegante, bem proporcionado… que bela mulher! ainda bem que possa tratá-la por tu, fica mais fácil, menos barreiras, menos distâncias, entende… posso espreitar-te para dentro do decote?
— Só se me disser o seu estado civil…
— Casmurro, Casmurro, eu sou do Casmurro…
— Ah, desculpe. Mas o que quer afinal?
— Eu? Venho identificar um cadáver, ora essa!

O menoscabo, com morto

— Vá lá, homem, não pense mais nisso, a vida continua, deixe lá o outro que morreu…
— O outro que morreu?! Que outro? Quem morreu?
— Mas… o Groucho… pensei que soubesse
— O Groucho morreu?! O nosso Groucho?!
— Claro, o nosso, se alguma vez foi nosso. O Serra foi identificá-lo na morgue.
— Na morgue? Mas você está-se a passar ou quê? O Serra trabalha na morgue há anos, anda sempre por aí a mostrar a colecção de fotos de cadáveres feios e estropiados.
— Diabo! Disso não sabia eu…
— É o que dá um gajo meter-se com gente que não conhece. Que raio de menoscabo é este?

Terapia breve

- Mas porquê?
- O diálogo. Pensando bem, a resposta mais simples é essa: o diálogo.
- Nunca tinha tido?
- Em parte, sim. Aliás, como tudo na vida: parece que é sempre em parte.
- Já está a elaborar, essa já não é uma resposta simples.
- Pois… Falar com o Groucho foi uma libertação. Não tenho outro modo de o dizer. Acha ridículo?
- Não tenho de achar, o que importa para já é o que você acha. Porque diz que seria ridículo? (pausa longa) Não pense tanto.
- Afinal de contas… Bom, afinal de contas era apenas um blog. Era apenas uma personagem. Será a vida assim tão desinteressante, que nos afeiçoemos a uma personagem a ponto de chorarmos a sua perda?
- Não sei, diga-mo você. Mas noto que faz uma distinção muito nítida entre vida e ficção.
- Pois… Mas percebe o que quero dizer.
- O que você me possa explicar é muito mais importante do que aquilo que eu possa perceber.
- Compreeendo. (pausa) Vai ser um bocado cansativo.
- A terapia é um processo de mudança e a mudança implica esforço.
- Seja. Não é que acredite muito... Mas por agora fiquemos por aqui.

Casa de férias 7 ou um crime deveras insolúvel

A acção decorre na véspera do infausto acontecimento marcado para dia 8. Nenhuma personagem está autorizada a pronunciar o nome daquele cujo nome não devemos pronunciar. Sala de estar fortemente iluminada. Mourão anda de um lado para o outro, por vezes vem à janela, respira fundo, abana levemente a cabeça, retoma a deambulação.
Som estridente da campainha. Duas vezes. Mourão vai abrir apressadamente. Entram dois homens. Não olham para Mourão nem lhe dirigem a palavra. Vão deambulando pela sala. Mourão regressa devagar, fala com um tom incrédulo e até um pouco medroso.

MOURÃO: Os senhores são quem eu penso que são?
UM: Sem dúvida.
OUTRO: Oui, Monsieur, não tenha disso a menor dúvida.
MOURÃO: Mas não é possível.
UM: Os tempos são outros. Os meios são outros. (aparte) Se bem que isto é um pouco bizarro.
OUTRO: Ora, Sr. Mourão, como pode pensar que a nossa presença aqui tenha o que quer que seja de estranho, se as circunstâncias não só a explicam como até a exigem?
MOURÃO: Mas quem os chamou? Os outros membros do clube?
UM: O caso foi-nos entregue, esse é o procedimento normal.
MOURÃO: A ambos? (dirigindo-se a Outro) A você também? Quem o contratou a si?
OUTRO: O importante agora é o caso, Sr. Mourão.
MOURÃO: Há qualquer coisa de errado... (pausa) Mas vamos lá tentar resolver isto de uma vez. (em tom decidido) Têm toda a cooperação que eu possa dar, mas ajudem-me a perceber, se é que sabem, a razão de estarem aqui. (dirigindo-se a Um) Inspector Maigret, quer ter a bondade de me dizer porquê?
MAIGRET: O crime aconteceu numa cidade de província, percebe, num bairro social... algumas pistas apontam para um crime fortuito, contendas com a vizinhança... numa palavra, vida empírica a mais, se é que me percebe.
MOURÃO: (em voz baixa) Disparate! (tom normal) Mas qual a relação entre Paris e um bairro social de uma cidade de província?
MAIGRET: O crime, Sr. Mourão. Naquele Paris os crimes eram muito classe baixa, psicologia previsível, procedimentos que...
MOURÃO: (interrompendo) Obrigado. (dirigindo-se a Outro) Sr. Hercule Poirot, quer ter a bondade?..
POIROT: Bien sur. Há também suspeitas de que o crime possa estar ligado ao clube. Um crime colectivo, são essas as suspeitas, para ser mais específico. Um crime envolvendo sem excepção toda a alta classe que passava pelo clube.
MOURÃO: Classe alta, o clube?!
POIROT: Alta classe intelectual, Sr. Mourão. Um crime intelectual perfeito. (Maigret desinteressa-se da conversa, Poirot entusiasma-se) Um crime único e perfeito: todos o mataram, incluindo o senhor, naturalmente, e afinal ninguém o matou.
MOURÃO: Não compreendo.
POIROT: Acredito que não. Mas acredite também que a sua responsabilidade é imensa. O senhor pô-lo a ler, a ver filmes, a passear, em férias… Enfim, repetindo o meu amável colega, demasiada empiria. Mas o ponto, bien sur, é que se todos o mataram, afinal ninguém o matou. Já estava morto há muito, Monsieur. Voilá.
MOURÃO: Mas então porque diz que todos o mataram? E se já estava morto, quem o matou? Ou de que morreu?
POIROT: Bien sur. (pausa; caminha até à janela) Ah, o mar…
(fica absorto, a olhar; Maigret regressa à conversa)
MAIGRET: Conhece bem as pessoas do prédio?
MOURÃO: Não.
MAIGRET: E os membros do clube?
MOURÃO: Pessoalmente, não todos.
MAIGRET: E os que conhece pessoalmente, quando os viu pela última vez?
MOURÃO: Já vai há uns tempos, ora deixe-me pensar…
MAIGRET: Um jantar, talvez?
MOURÃO: Não, acho que não…
MAIGRET: Uma amena cavaqueira regada a Barca Velha e a Mouchão 1988?
MOURÃO: Como não bebo, não dou muita…
MAIGRET: (interrompendo) Não bebe?!
MOURÃO: Quase nunca. Vinho, nunca gostei. De quando em vez, muito raramente, um licor…
MAIGRET: (em voz baixa) Era o que eu pensava. (normal) Mas então, a última vez que viu um dos membros do clube?.. Digamos, foi antes do Natal? Há mais tempo, há menos tempo?
MOURÃO: Há mais tempo, seguramente.
MAIGRET: Aí está.
MOURÃO: Aí está o quê?
MAIGRET: Não pode ter a certeza disto.
MOURÃO: Disto o quê, caramba? De que raio está você a falar?
(Maigret cala-se e acende o cachimbo. Poirot volta à conversa)
POIROT: O erro foi terem-no posto a falar, Monsieur.
MAIGRET: Porque é sabido: quando alguém começa a falar, em algum momento vai ter de calar-se. Enfim, é uma lei.
POIROT: E é muito diferente calar-se alguém que falava, ou continuar calado quem nunca falou.
(Mourão olha para ambos estupefacto, parece em transe. Maigret e Poirot falam como se não estivesse mais ninguém na sala)
MAIGRET: Deviam ter escolhido o Harpo.
POIROT: Voilá.
MAIGRET: Agora é tarde.
POIROT: Quel dommage…
MAIGRET: Acha que ele sobrevive?
POIROT: Não tem importância.
MAIGRET: Pois não, já não é connosco.
POIROT: Voilá.
(pausa)
MAIGRET: Vamos?
POIROT: Pra ?!
MAIGRET: Que ideia, claro que não! Não há lugar para nós. Completa empiria, aquilo.
POIROT: Pois, era o que me parecia. (pausa) Mas então, vamos para onde?
MAIGRET: Ora, para onde há-de ser? Vamos ter com ele.
POIROT: Claro, bien sur.
(pausa)
MAIGRET: Vamos?
POIROT: Vamos.
(não se mexem)

Visitação da Morgue

A notícia foi chegando com toda a sua violência. Tive de esperar que a brutalidade da morte fosse cedendo à lenta ternura de uma derradeira imagem do Groucho – aquela que é capaz de arrancar uma réstia de vida mesmo na morte. Para mim continua vivo neste mínimo resto de vida que todo o morto tem, nem que seja por uma última centésima de segundo. Por alguma razão ainda não de todo clara, num pequeno bilhete manuscrito que nos deixou, com poucas palavras, muito escassas mesmo, pediu expressamente ser eu o membro do Clube Casmurro a ir à Morgue tentar identificar o corpo. Veementes, são parcas as palavras do bilhete; e são também obscuras, pelo menos eram obscuras antes do meu demorado e silencioso passeio pela Morgue. Dizia-me ainda o Groucho, no pequeno bilhete, que me inspirasse em W.B., e me aproximasse do corpo presente, do corpo morto, com aquele espírito crítico com que há que observar uma obra de arte: com a mesma brandura que um canibal utilizaria para cozinhar um recém-nascido. É mais na morte que o Groucho está no meio de nós. Cumpri o pedido, fui à Morgue, foram minhas as palavras que me endereçou, vi a violência – eu! – e regresso agora com quase todas as imagens que retenho da solene e luminosa visitação. Para que os cavalheiros deste clube também comunguem.

Morgue 1



Andrés Serrano, “Gun Murder”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 2



Andrés Serrano, “Infectious Pneumonia”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 3



Andrés Serrano, “Aids Related Death”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 4



Andrés Serrano, “Bottle Murder”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 5



Andrés Serrano, “Rat Poison Suicide”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 6



Andrés Serrano, “Natural Death”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 7



Andrés Serrano, “Rat Poison Suicide II”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 8



Andrés Serrano, “Asphyxiation”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 9



Andrés Serrano, “Hacked to Death II”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 10



Andrés Serrano, “Suicide”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 11



Andrés Serrano, “Burnt to Death II”, The Morgue, NY, 1992.

Morgue 12



Andrés Serrano, “Knifed to Death”, The Morgue, NY, 1992.

Mensagem encontrada numa latrina

Caro Groucho


Estou certo que chego tarde. Chegamos sempre tarde, como o coelho. Eu prefiro os lémures, como sabe. Chegam sempre a tempo. São de uma lealdade infalível. Mais que isso, junto deles somos capazes de substituir toda a lógica da adição por um mero devaneio em campo de felicidade quase burguesa. Descobri isso há uns anos, e foi o que me valeu na decrepitude com planos de metadona e tudo.
Estarei certamente no Paraíso ou em Tânger, e é daqui que lhe escrevo. Compre urgentemente uma arma: afinada e polida. Não há nada tão belo e enigmático como uma arma. Só um UFO. Seja como for, não perca tempo a contemplá-la: Elas vêm aí sob a forma de um bando de Amazonas lideradas por essa mulherzinha, a Clara.
Espreite pela janela, estão do outro lado da rua, agora... Cuidado, espreite com muita cautela que de inábil é que Elas nada têm. Elas dão sempre por ela... Elimine-as o quanto antes! Faça-lhes um cut up de balas. Faça, Faça!

Bill Burroughs

Fogo-de-artifício 1

LQ – Eles andam aí!
PS – Pois andam!
FMO – Eles quem?
LQ – E você de onde saiu?
FMO – Isso é comigo?
LQ – É consigo e comigo! Olha que merda!
MP – Chá! Chá! O chá está servido!
OMS – O chá não sei, mas a chacha já está de certeza…
MP – E o que é que isso quer dizer, vamos lá a saber?
ABB – E se vem a chacha, logo vem a chalaça…
CA – Cuidado! Que vem aí a chaleira!
FMO – A chaleira ou a chalaça?
LQ – A leste nada de novo!
FMO – Isso é comigo?
LQ – É consigo e comigo! Olha que merda!

Fogo-de-artifício 2

LM – Queimei a língua!
MP – Mas eu avisei que o chá estava a escaldar.
OMS – Sr. Portela, que espécie de deixa é essa?
MP – É uma deixa a andar!
CA – Então, senhores!, o Sr. Mourão queimou a língua!
GR – Quem anda à chuva molha-se!
ABB – Quem anda à chuva molha-se, Sr. Rubim? Não misture as metáforas.
LQ – Não é metáfora nenhuma. Olhem para a cara dele!
PS – Está aflito, coitado!
FMO – Queimou as papilas todas!
OMS – Sr. Portela, por amor de Deus, queimou as papilas todas? Queimou as papilas todas?
PS – O que tem a fala do homem?
FMO – Mas foi a fala ou foi a língua?
OMS – Tudo em prol da literatura dramática!
GR – Beckett e Ibsen. Sobretudo Ibsen!
CA – Faz bem em pôr água na fervura!
ABB – Pôr água na fervura, Clara? Não queime as metáforas. Guarde-as para melhor ocasião. [Puxa do caderninho de retórica e toma notas afanosas. Hipálage, aponta, com a ponta da língua de fora e o nariz em cima da folha.]
LQ – Não é metáfora nenhuma. Olhem para a cara dele!
PS – Está aflito, coitado!
FMO – Queimou as pupilas todas!
PS – Os olhos também?
MP – Os olhos não, porra! Via-se bem que era uma gralha, Sr. Oliveira!
FMO – Acha que fiz de propósito?
OMS – Tudo em prol da literatura dramática!

Fogo-de-artifício 3

LM – Queimei a língua!
MP – Outra vez?
LM – Isso pergunto eu!
MP – E como quer que eu saiba? Acaso moro na sua boca?
LM – Se soubesse que isto era assim, tinha ficado no multiplex!
LQ – Qual é o filme hoje, man?
FMO – Acho que é Estranhos no Telhado.
PS – Não, esse já foi. Hoje é Truz-truz, quem é?
GR – Truz-truz, quem é? ? Nunca ouvi falar.
OMS – E quem ouviu?
CA – Então, senhores!, o Sr. Mourão queimou a língua!
FMO – Bom, agora é tarde demais.
PS – A história segue o seu curso.
CA – O seu curso melancólico!
OMS – O anjo novo de Klee!
MP – Essa agora escapou-me!
ABB – E essa também!
PS – Tudo escapa!
FMO – Tubo escape!
LQ – Boa, Sr. Oliveira!, começa a entrar no espírito da coisa.
GR – Faço minhas as suas palavras!
PS – E eu as suas!
MP – E eu as minhas!
OMS – E quem faz suas as minhas?
CA – Eu é que não!
ABB – Usurpador-usurpado!
LQ – Perdão, obsevador-observado!
FMO – E isso significa o quê, hein?
LQ – Hibernador-hibernado!
FMO – E isso significa o quê, hein? Hein?
MP – O chá está na chávena!

Fogo-de-artifício 4

ABB – Estamos à sua espera!
LM – Nem pensem!
ABB – Mas acha assim tão mau?
LM – Experimente você!
ABB – Queimei a língua!
GR – Também?
ABB – Estava só a ensaiar.
CA – Mas eu avisei que estava a escaldar.
MP – Espere, que essa frase é minha.
LQ – Inda estão nisso?
ABB – Já expliquei que estava só a ensaiar.
OMS – Claro, um ensaísta ensaia.
PS – Um nick bloguista bloga.
FMO – Um street artist rua.
LQ – Um body artist bora lá.
CA – Bloga, rua, bora lá.
OMS – …da-se.
GR – Um actor actua.
LM – Um casmurro casmurra!
MP – Sr. Mourão, o que é que isso significa?
OMS – Segurem-me! Segurem-me!
CA – O que é que lhe deu?
GR – O mesmo que a mim!
CA – O que foi, Sr. Serra?
PS – Querem a morte do autor, parece-me.
CA – Mas isso seria matar o morto!
LQ – Morto ou não, caguei!, violência ritual nunca fez mal a ninguém.
FMO – Calma!
MP – Calma digo eu!
LM – E eu! que estava agora tão bem no multiplex!

Fogo-de-artifício 5

LQ (baloiça, suspenso do candelabro) – Tá-se bem!
MP (surpreendido) – O que faz aí em cima?
OMS (sarcástico) — Se calhar a didascália não lhe saiu das mãos?
ABB (conciliador) – Olhe que ele até a costuma dispensar.
FMO (acabado de chegar) – Dispensar quem?
GR (visivelmente irritado) – Talvez dispense a didascália, mas trocadilhos é um ver se te avias!
CA (olhando para o tecto) – Sr. Quintais, pendurado outra vez!
LQ (irónico) – Bem o pode dizer!
MP (atrapalhado) – O que é que eu hei-de fazer? Os Senhores e a Senhora não me dão tempo!
PS (entrando sem se fazer notar) – Tire-o dali!
LM (exortativo) – Realmente, isso não se faz! E já há precedente.
GR (escarnecedor) – A redundância é a mãe da invenção.
FMO (espantado) – Pensei que fosse a necessidade!
CA (impaciente) – Ora, Sr. Oliveira!
MP (insistente) – Quando cheguei ele já lá estava. Eu nem tinha sequer deitado as mãos ao papel.
OMS (mordaz) – Deitá-las ao papel, nem eu diria melhor — agora à obra, isso é que já não está nas suas mãos.

Fogo-de-artifício 6

ABB (pensativo) – Anáforas e epanáforas!
PS (intrigado) – Anáforas e epanáforas?
ABB (explicativo) – Sim, sim. É o truque dele.
OMS (indignado) - Truque? Isso é dar crédito demais à criatura. Ele sabe lá o que faz!
FMO (sempre oportuno) – De quem é que estão a falar?
LQ (baloiça, suspenso do candelabro) – Tá-se bem!
LM (fazendo avançar a acção) – E o que fazemos com aquele lá em cima?
PS (virando-se para ABB) – Mas ainda não percebi a descrição do método.
GR (zombando) – É Stanislavsky à procura de Pirandello.
FMO (inquisitivo) – Ai é? Deve ser uma coisa nova. Pensei que aqui só se praticava Brecht.
CA (corroborante) — E eu, que era só absurdo!
OMS (contundente) — Do absurdo é que não é! Mas lá que tem qualquer coisa a menos, disso nunca tive dúvidas!
LM (fazendo avançar a acção) – Do corpo, não vos parece?
PS (a testa franzida em sinal de ponderação) – Da palavra, diria eu.
ABB (triunfante) – Ora, era aí que eu queria chegar!
FMO (vingando os desaires anteriores) – Mas não foi aí que começou?
GR (galhofando) – O eterno retorno é a origem da tragédia.
PS (pronunciando as sílabas com gravidade) – Ou-tro mé-to-do? Mas o homem é inesgotável.
CA (desafiadora) – O problema persiste: como interpretar a Personagem no Candelabro?
FMO (olhando para o tecto) – Mas a peça já tem título, é?
ABB (à beira de perder as estribeiras) – Viu algum itálico, viu? Por acaso viu algum? Viu? Viu?
LQ (baloiça, suspenso do candelabro) – Tá-se bem!
LM (fazendo avançar a acção) – Mas o Sr. não consegue dizer outra coisa?
LQ (baloiça, suspenso do candelabro) – Conseguir, consigo! O problema não é esse.
FMO (interrogativo) – Mas que é dele, que não aparece?

Fogo-de-artifício 7

(pensativo) (apresentando-se) – Pensativo. Tenho estado a ouvir. Abel Barros Baptista? O das epanáforas?
ABB (solícito) – Precisamente! O próprio, ao seu dispor.
(pensativo) – Estes diálogos são curiosos. É pena os parêntesis.
ABB (intrigado) – Os parêntesis?
(intrigado) – Sim. Não nos deixam ouvir bem. Intrigado, muito prazer.
ABB (cortês) – O prazer é meu.
PS (ligeira vénia) - E meu.
(ligeira vénia) – Já agora. Deixe-me apertar-lhe a mão.
OMS (indignado) – Aperte-lha! Aperte-lha, a ver se pára.
PS (fazendo conversa) – E diga-me, de onde vem o seu apelido?
(ligeira vénia) – Nem sei bem, já está na família há várias gerações. Sei que o meu tetravô já era vénia.
(intrigado) – A linhagem é até muito conhecida.
(pensativo) – Nunca me falou disso.
FMO (sempre oportuno) – De quem é que estão a falar?
LQ (baloiça, suspenso do candelabro) – Tá-se bem!
LM (fazendo avançar a acção) – Há que pôr um ponto final nisto.
GR (enfadado) – Lá por isso. Põe-se um ponto final.
CA (aliviada) – Finalmente, vou poder descansar.
(aliviada) – E eu também!
PS (conformado) – Custou, mas foi.
ABB (saudoso) – Os caderninhos é que foi pena!
FMO (interrogativo) – Mas que é dele, que não aparece?
OMS (desdenhoso) – Se calhar, queriam mais chá?

Fogo-de-artifício 8

LM – Um silvo a cortar o ar frio da noite!
GR – Já viu, Clara, como o fogo sobe no ar!
CA – Já viu, meu querido Rubim, como a luz anuncia a chegada do som!
ABB – Lá no alto, chispas coloridas numa campânula de luz!
OMS – Uma tremenda expansão de energia contida!
PS – Depois um estouro, e depois outro, e outro, e outro, um rumor de estampidos.
FMO – Brancas, vermelhas, amarelas, azuis, as lágrimas cintilam em arcos de luz.
LQ – Um breve brilho brilhante bruxuleia.
MP – E as cinzas beijam o orvalho que as espera no chão.

1289

- Novamente o Elvis? Diz-lhe que espere, lá vou, lá vou.
- Tem a voz cada vez mais estranha. Diz que não te levantes, e que lá te espera.

1288

























Viana do Castelo, 08 Mar (Lusa) – Adensam-se as trevas sobre o crime do bairro operário em Viana do Castelo. A PJ nada deixou transpirar, o que, de acordo com alguns analistas criminais, poderá apontar para uma foreign connection. Há quem refira o mundo da droga e há também quem aponte o dedo à máfia russa do submundo do alterne e da prostituição. Mas a pista mais forte parece ser a do terrorismo islâmico, ou do contra-terrorismo israelita.
Uma fonte muito bem colocada acaba porém de nos revelar que as investigações, inicialmente orientadas para questões de «política internacional» em versão de «balística», sofreram uma guinada de 180º após a descoberta, no depósito de bagagens da Rodoviária de Viana, de uma arca, de média dimensão, pertencente ao enigmático e fugaz habitante do 3º andar do bairro operário. A arca, de confecção sólida, em madeira de castanho, com incrustações de cabedal nos cantos, apresentou-se repleta de… papéis. Papéis escritos e, ressalve-se, manuscritos, ordenados em pacotes mais ou menos volumosos, todos eles com um nome escrito. Assim, mais de metade dos pacotes ostentam uma abreviatura «Gr.». Nestes, ao que apurámos, foi possível detectar o que parecem ser obras do tal «Gr.»: uns Caderninhos de Retórica, assaz incompreensíveis (a PJ suspeita que se trate de um código usado por uma célula terrorista), um estranho Dicionário, que em nada ajuda a entender os significados dos termos dicionarizados, um ainda mais incompreensível romance de aeroporto, com ilustrações, tudo obras cifradas, seguramente; e ainda, em laudas e laudas, conversas do dito «Gr.» com outras pessoas, todas elas denotando «o vício do circunlóquio e do brilhantismo pseudo-intelectual» (palavras do comissário Fagundes, da PJ). Além desses pacotes, encontra-se na arca um número razoável de pacotes, e nalguns casos envelopes, atribuídos aos nomes que, de acordo com a fidedigna informação da nossa fonte, passamos a elencar alfabeticamente: Antunes, Baptista, Mourão, Oliveira, Portela, Quintais, Rubim, Serra, Silvestre.
A PJ está a trabalhar com várias hipóteses a respeito deste conjunto de nomes, mas, entre os mais idosos membros da corporação, há quem lembre, não sem saudade, o Projecto Global encriptado nos caderninhos de Otelo Saraiva de Carvalho. A natureza cifrada dos textos não tem ajudado, ao que parece, a investigação. O mais surpreendente, mas também mais promissor, até ao momento, foi a descoberta de um texto, no pacote nº 1 de «Gr.», de uma «Carta a EPC sobre a génese dos casmurros».
Bem mais enigmática, porém, foi a descoberta, na mesinha de cabeceira do episódico habitante do bairro operário, de uma folha ostentando a seguinte frase em inglês: «Beware the Idles of March!», seguida, no verso, de uma outra frase no mesmo idioma: «I know not what tomorrow will bring».
Seja como for, de acordo com a nossa fonte a PJ está convencida de que muito em breve conseguirá deitar a mão a todo o bando terrorista.

OMS

Lusa/Fim

1287












Viana do Castelo, 08 Mar (Lusa) – Continua a suscitar espanto e a alimentar rumores o terrível crime verificado ontem, num 3º andar do bairro operário desta cidade. De acordo com João Reboredo, habitante do 2º andar, pelas 23.30 ouviu-se uma série de estrondos no andar de cima - «Pareciam tiros, tal como nos filmes!», confessou-nos – seguidos de sons de corpos a correr e a cair pelas escadas abaixo.
Após algum tempo gasto a interrogar-se sobre a natureza da extravagante ocorrência, e a espreitar timoratamente pelo óculo da porta, o Sr. Reboredo ganhou coragem para sair para o patamar e, percebendo que a porta da casa do 3º andar estava aberta, decidiu-se a subir. O que viu, e cedemos-lhe a palavra, «Nunca mais o poderei esquecer, cem anos que viva!». Três homens pelo chão, mortos, sangue por todo o lado, e mesmo pelas escadas abaixo, até à rua.
Chamadas as autoridades, estas confirmaram o óbito de três homens com idades compreendidas entre os 30 e os 40 anos, robustos e com aparência estrangeira, tendo um deles perecido com três tiros na cabeça, todos num raio de três centímetros, outro «cirurgicamente» degolado e, enfim, o terceiro, com um punhal, fino e longo, afundado no olho esquerdo, até meio do cérebro. Segundo o comissário Jesualdo, da PSP local, nunca um crime desta dimensão tivera lugar na pacata e simpática capital do Alto Minho.
A PJ, chamada ao local, proibiu de imediato o acesso à cena do crime. Segundo fontes geralmente bem informadas, tudo indica que, além dos três mortos, tenham intervindo no macabro evento mais dois indivíduos, que se terão perseguido a tiro pelas escadas abaixo, já que as paredes ostentam sinais de balas.
Estranhamente, ou talvez não, o actual residente do apartamento em causa encontrava-se de passagem, tendo aparecido no prédio, ainda de acordo com João Reboredo, há não mais de duas semanas. «Esquivo mas cortês e muito bem falante», assim o definiu o vizinho do andar de baixo.

OMS

Lusa/Fim

07 Março 2006

1286

- Groucho, o telefone. É para ti outra vez.
- Quem é? Não estou para ninguém.
- Diz ser o Elvis, continua a ter a voz estranha.
- O Elvis? Diz-lhe que espere, já lá vou.

1285

— mas coisa nenhuma! seu palerma, coisa nenhuma! Isto não fica assim, ninguém me manda lamber sabão com essa lata e muito menos impunemente...
—Homem, acalme-se, deixe-me explicar...
— Explica coisa nenhuma, ouviu? coisa nenhuma... liga para aqui para me humilhar, ofender, menosprezar... é preciso ter uma puta duma lata!
— Groucho, vá lá, acalme-se, isto não é tão grave como parece...
— Não é tão grave?! Não é tão grave!? Não é tão grave!! Mas que menoscabo é este? Hein, que menoscabo é este!? Isto é o fim, ouviu? o fim. Depois disto, depois deste menoscabo, depois desta humilhação, depois disto, porra! depois disto não há mais nada!
— Mais nada? Mas...
— mas coisa nenhuma! seu palerma, coisa nenhuma! Isto não fica assim, ninguém me manda lamber sabão com essa lata e muito menos impunemente...
—Homem, acalme-se, deixe-me explicar...
— Explica coisa nenhuma, ouviu? coisa nenhuma... liga para aqui para me humilhar, ofender, menosprezar... é preciso ter uma puta duma lata!
— Groucho, vá lá, acalme-se, isto não é tão grave como parece...
— Não é tão grave?! Não é tão grave!? Não é tão grave!! Mas que menoscabo é este? Hein, que menoscabo é este!? Isto é o fim, ouviu? o fim. Depois disto, depois deste menoscabo, depois desta humilhação, depois disto, porra! depois disto não há mais nada!
— Mais nada? Mas...
(etc.)

1284

- Groucho, o telefone. É para ti.
- Quem é? Não estou para ninguém.
- Diz ser o Elvis, mas tem a voz estranha.
- O Elvis? Diz-lhe que espere, já vou.

1283

- Grautchu?
- Grautchu?
- Sim, Grautchu. É você, Grautchu?
- Grautchu, o paralógico?
- Não, Grautchu apenas.
- Grautchu, o médium?
- Não, Grautchu, o Grautchu.
- E se for?
- Se for, diga se é.
- Se é?
- Se é o que for.
- E se não for?
- Se não for, diga se não é.
- Se não é?
- Se não é o que não for.
- E a Senhora, quem é?
- Eu?
- Sim, a voz desse lado da linha.
- É urgente. Preciso de falar com ele.
- Com quem?
- Com o Grautchu.
- Grautchu, o paralógico?
- Não, Grautchu apenas.
- Grautchu, o médium?
- Não, Grautchu, o Grautchu.
- Bom, o Grautchu não está. Quer deixar recado?

1282

- Groucho, está?!
- Quem?
_ Quintais, de novo.
- Não me distraia. Acabo de matar dois tipos, outros dois fugiram. Um bando de assassinos a dançar a polka no meu telhado.
- Você ensandeceu, Groucho.
- Não. Aliás, você é certamente o mandante. Sempre ausente, e agora regressado dos mortos...
- Deixe-se de paralogismos.
- Paralogismos?
- Sim, homem, o que diria o Cid?
- O Cid?
- Sobral Cid. O psiquiatra português. Deliciar-se-ia certamente com o seu caso. Você está a sistematizar paralogismos, erros de interpretação. Um caso de "loucura raciocinante", é o que é. Groucho, ou o grande paranóico, assim será o seu epitáfio.
- Você quer-me morto, seu patife. Sempre linfático, e agora vejo que conspira contra mim desde o princípio. Os demais Casmurros não são mais do que avataras seus, ó Sombra.
- Sombra?
- Sombra na sombra, fanático-do-sistema?
- Fanático-do-sistema. Você lembrou-me agora o Bill Burroughs.
- Telefonou-me ainda há pouco. Grande Bill! Disse-me o que lhe digo agora: o grande mandante é o Quintais!
- Deixe-se de merdas.
- Estou farto de ordinarices. Sabe o que me disse ele ainda? Sem grande convicção, mas disse. Preciso ainda de confirmá-lo. O Bill ficou de me telefonar... Será a Clara a dar o golpe de misericórdia. A Clara é uma agente infiltrada, como todas as mulheres.
- Não me diga que deu em gay misógino como o Bill.
- Saia da linha, homem, que ele deve estar para ligar a qualquer momento...
[A chamada é interrompida].

1281

- De momento, o número que marcou não está disponível. Por favor, deixe a sua mensagem após o sinal.
- Groucho, sou eu outra vez. Afinal não me ligou. Ouviu a mensagem? Se calhar nem ficou gravada. Já me aconteceu, sabe? Começa-se a falar, a falar, a tentar encontrar as palavras, a sentir os silêncios, a preenchê-los, a preenchê-los, parece que quanto mais se fala mais eles aumentam e depois já não se consegue parar, fala-se, fala-se, e começa-se a repetir, a repetir, parece que não se sai do mesmo lugar. Não me diga que já não sentiu isto? Mas isso nem é o pior. O pior é que nessa ânsia de falar e de abolir o silêncio e de repetir e de encher tudo de sinais, sim, encher tudo de sinais, transformar cada palavra, cada gesto, cada objecto, num sinal, nessa ânsia de falar diz-se o que não se queria dizer, percebe? O que não se queria dizer não enquanto desconhecimento do que se queria dizer e se descobre no acto de dizer, não, nada disso, mas sim o que não se queria mesmo dizer e só a ânsia de falar e de abolir o silêncio e de repetir e de encher tudo de sinais nos leva a dizer, percebe? A palavra tem uma agenda escondida. Um inconsciente? Não, não é bem um inconsciente, porque a linguagem sabe bem o que faz. É da sua natureza. Ser assim, insidiosa, infiltrar-se. No aparelho fonador, no cérebro, nos dedos. E deitar tudo a perder. Falar através de nós. Não de uma forma mecânica, nada disso. É muito mais esperta do que isso. Começa branda e doce, ao ponto de se confundir connosco. Mas não. Está sempre à espreita. E quando damos por ela, pronto, já está, dissemos o que não queríamos dizer. É uma lógica implacável, sabe? Começa-se a falar, a falar, a tentar encontrar as palavras, a sentir os silêncios, a preenchê-los, a preenchê-los, parece que quanto mais se fala mais eles aumentam e depois já não se consegue parar, fala-se, fala-se, e começa-se a repetir, a repetir, parece que não se sai do mesmo lugar. Mas não. Avança-se, avança-se sempre. Sem saber para onde. Diga-me, isto também se passa consigo? Seria isto que eu lhe queria perguntar? Não, não era com certeza. Bom, nem sei bem o motivo da chamada. Mas ligue-me, ligue-me quando puder.

06 Março 2006

1280

- Está, está lá, está?
- Está o quê?
- Quem fala, oiço-o muito mal?
- Quintais, pá, regressado dos mortos, para lhe dizer que você deveria regressar também.
- Quintais, agora não posso, oiço passos no telhado [a linha interrompe-se].

1279





















- Está?
- Sim?
- Sr. Silvestre?
- O próprio.
- É o Groucho.
- Quem? Fale mais alto, por favor.
- O Groucho, Sr. Silvestre.
- Groucho?!... Mas por que é que está a falar tão baixo? Chegue-se mais ao bocal do telefone.
- [Continuando a falar baixo] Não posso, senhor. Não é conveniente.
- Não é pertinente? E porquê?
- Conveniente, senhor, conveniente.
- Mas porquê, homem?
- É perigoso…
- Perigoso?...
- Sim, muito perigoso, mesmo. O senhor está sozinho? Tem a certeza de que o seu telefone não está sob escuta?
- Como sabe, meu caro, hoje em dia ninguém pode estar certo disso…
- Pois é. Bom, olhe, estou a telefonar-lhe para o informar de que vou passar à clandestinidade.
- Vai viver para onde? Fale mais alto, carago.
- Clandestinidade, senhor, vou passar à clandestinidade!
- Clandestini… Mas você ensandeceu de vez, homem?
- Questões de sobrevivência básica, senhor. Há um atentado a ser congeminado na sombra contra mim.
- Hã?!...
- Pois, e até já sei a data: no próximo dia 9.
- Dia 9? Há qualquer coisa desagradável agendada para esse dia… Mas não me ocorre o que seja.
- Deve ser o meu atentado, senhor…
- Não seja paranóico, homem! Qual atentado, qual quê! Referia-me a uma coisa mesmo muito desagradável.
- Obrigado, pelo que me toca, senhor. Constato, pois, infelizmente sem surpresa, que um atentado contra o seu leal servidor não será coisa desagradável.
- «Leal servidor» é boa, Groucho, muito boa, mesmo… E olhe lá, quem é que vai atentar então contra si?
- Vejo, pelo seu tom, que não me leva a sério. Vai arrepender-se, vai ver.
- Ora, Groucho… Vá, diga lá quem é que o quer matar.
- [Num sussurro] Os sionistas, senhor…
- Fale mais alto, homem! Os quê?
- Os sionistas!
- … [Longo silêncio]
- Está?
- Não, acho que não estou em mim… Mas quem é que lhe transmitiu uma informação dessas, homem?
- Os meus amigos do Hamas, senhor.
- Ainda há mais? Mas o quê?
- Do HAMAS, senhor!
- … [Novo silêncio] Mas… Você tem amigos no Hamas?! E não nos disse nada quando concorreu ao posto de mordomo do clube? Como dizia um vizinho meu, isto é estupefacto!!
- Não vejo porque haveria de referir isso. Aliás, era o que mais faltava, termos de dar os nomes dos nossos amigos todos quando concorremos a um lugar. E ainda criticam o Patriot Act!
- Pois, pois… Além do mais, gente amiga do seu amigo, essa malta do Hamas, imagino.
- E como, senhor! Pois foram eles que me informaram de que a Mossad enviou para o nosso país um comando, completamente desligado dos vínculos da Mossad e mesmo do governo de Israel, para realizar uma série de atentados contra gente não grata.
- Isso parece o Munique, ó Groucho. Esses seus amigos vêem muito cinema americano... Mas se for como no filme não se apoquente, pois aquela malta da Mossad sofre em demasia de estados de alma, de cada vez que tem de puxar um gatilho. Mas, já agora, a que propósito é que você integra a lista? Você, um pachorrento mordomo?
- Enfim, eu também não percebo muito bem. É verdade que há uns anos já que passo as férias em Gaza em programas voluntários de educação de jovens. Mas nada que possa suscitar desejos de reataliação, creio.
- Educação de jovens? Francês, inglês, música clássica, maneiras à mesa, umas citações de clássicos para acompanhar os vinhos?
- Não apenas, senhor…
- Não apenas? Aulas práticas sobre educação sexual e Sida? Umas luzes sobre a globalização?
- Também, mas não apenas, senhor…
- O direito internacional à luz da religião? A religião nos limites da pura razão?
- Não apenas, senhor…
- Desisto! Desembuche lá, homem.
- Bom, além de tudo isso, também umas regras ético-práticas sobre «como enfrentar um soldado israelita na rua e sobreviver». Coisas assim…
- «Como enfrentar um soldado…»!! Mas de que está você a falar?
- Ora, reconversão das clássicas e bíblicas fundas, vulgo fisgas, para efeitos de Intifada, etc. Pequeninas coisas.
- Eu… Eu… Você está a brincar. Só pode.
- Não, senhor, de modo algum. Sabe que eu integro uma ONG de mordomos criada para esse efeito. Subsidiada aliás pela UE. Chegámos a ter um bom financiamento anual, devido ao êxito dos nossos programas de reconversão. Mas agora, tenho de lhe confessar, estou com medo…
- E, dessas suas actividades de formação de jovens, não sobrou por aí, por acaso, nenhuma fisga?
- Só uns suspensórios, senhor. Mas devem resultar, ainda que não para um comando inteiro. Mas também tenho aqui uma caneta com uma Uzi lá dentro. E duas granadas nos botões de punho. Terei de… [Cala-se]
- Groucho? Está?
- [Num sussurro] Tenho de desligar, senhor. Ouvi um barulho suspeito no telhado. Reze por mim, senhor. Inch’Allah!
- Hã?!! [Linha abruptamente cortada]

05 Março 2006

1278

— O meu caro amigo continua desolado com a ausência do Groucho?
— Não, nada disso, estou até aliviado. Já não o podia ver à frente!
— Caramba… a sério?!
— A sério, gaita. Só espero mesmo é que o Mourão o mate de tédio lá em Braga…
— Viana, acho que estão em Viana do Castelo.
Whatever, o tédio do Minho é todo igual. Igual ao daqui, quero dizer. Agora só faço a mim mesmo uma pergunta…
— Sim… qual?
— Quando criámos isto, por que raio fomos arranjar um Groucho em vez duma Capitu?

1277

- Está?
- Sim. Quem fala?
- É você, Groucho?
- Desculpe, mas deve ser engano.
- Mas não é do 212062005?
- Bom, estou aqui de passagem e não sei o número de cor.
- Então como pode afirmar que é engano?
- Minha Senhora, já lhe disse que não mora cá nenhum Roxo.
- Não é Roxo, é Groucho.
- Nem Roxo, nem Groucho coisa nenhuma.
- Talvez se lhe pronunciar o nome em inglês.
- Em inglês? Mas o que é que isso interessa, minha Senhora, se já lhe disse que não mora cá ninguém!?
- Então, mas se atendeu o telefone como é que não mora aí ninguém?
- Estou de passagem. De passagem, caramba!, já lhe disse.
- Calma, não se abespinhe!
- Abesquê?
- Abespinhe.
- Vou ter que desligar. (Aparte) Que sorte a minha! A primeira chamada da manhã e logo uma destas!
- Espere, espere! Deixe-me ao menos dizer o nome como deve ser. Talvez alguém aí em casa saiba onde pára o senhor.
- Diga lá então.
- Grautchu.
- Grautchu?
- Sim, Grautchu. É você, Grautchu?
- Que impertinência!
- Mas não é do 212062005?
- Não, aqui é do 205032006.
- Ah, peço desculpa! Foi engano.

1276

— Está?! Groucho? Raios...
— Grr **thrgrr**grheh kjiat** rac** crashc***... grrrr...
— Raios... Groucho?
— Sim, sim, sou eu... Desculpe, estava a comer batatas fritas.
— Ah... estamos um tanto preocupados consigo, está tudo bem?
— Quando alguma vez esteve tudo bem? Quando estará tudo bem? Que palermice...
— A sua saída foi esquisita, a permanência aí excessiva, sei lá...
— Não se preocupem comigo. Agradeçam a Deus o que vos está a acontecer, que eu farei o mesmo.
— A Deus?
— Sim. Adeus.
— ....................................................................


1275



- De momento, o número que marcou não está disponível. Por favor, deixe a sua mensagem após o sinal.
- Sou eu, Groucho. Não vou dizer o meu nome. Há-de reconhecer a minha voz na gravação, com certeza. Ou não? Às vezes, até a mim me soa estranha. Tenho tentado apanhá-lo, mas ninguém sabe onde pára. Pelo que leio, as suas férias têm corrido bem. Ao menos arranjou com quem conversar. E farta-se de ir ao cinema. E de passear à noite. Eu é que não posso dizer o mesmo. É uma canseira a engolir-me os dias e nunca percebi para quê. Um derrame de sangue. Um dom sem destino. Já há algum tempo que não conversamos, sabe? Vai-me dizer que nunca falámos. Que não me conhece. Que foi tudo imaginação minha. Olhe, eu próprio cheguei a pôr essa hipótese. Mas vi logo que não, que não podia ser. Que era delírio. Que era delírio pensar que era imaginação. Bem sei que isto foi ficando vazio, é verdade. Terá tido ecos disso, estou certo. Mas ainda há pouco conversámos os dois. Dirá que nos malentendemos quando muito. Talvez, mas essa era a nossa maneira de conversar. E até o que falha tem o sabor do amor. Sabe por que lhe estou a ligar? Imagino que não. Nem eu sei bem. Espero que saiba ao menos quem lhe está a ligar. Colaram um cartaz aqui na parede. Foi você? Isto era uma das coisas que lhe queria perguntar. Acho. Já nem me lembro da outra. Tenho de voltar a ligar. Ou então, ligue-me quando ouvir a mensagem. Espero que este seja o seu número. Não tenho outro. Adeus, Groucho.

03 Março 2006

Casa de férias 6, adenda final

Mesa encostada à janela, de noite. Chove. A luz vem de fora, mas há também duas velas minúsculas na mesa. Jantam. Em fundo, música do último verão. Falam alto, animadamente.
— Afinal, você é mesmo um metafísico de todo o tamanho, ó Sr. Mourão!
— Nada disso, Groucho. Estava apenas a sublinhar que isto é tudo forma, matriz.
— Eu não digo? Até o Matrix lhe serve!
— Matriz, Groucho, matriz, não confundamos. Mas deixe-me pôr as coisas noutros termos.
— Ponha, ponha. E deite aí um bocado mais de massa. Disse que isto era tricolor integral?
— Qualquer coisa assim. Esses canudinhos verdes são de espinafre, os laranja de cenoura, os castanhos acho que é só trigo ou lá que coisa é a massa.
— A gente come a realidade, mas não tem de saber o que é a realidade, certo?
(riem ambos)
— Mas então deixe-me pôr as coisas assim, Groucho: é como se a arte fosse um jogo de dados. Mas digamos que em vez de você lançar dois dados, lança vinte. E que cada dado, em vez de ter seis faces, tem doze.
— Mas ó Sr. Mourão, você sabe matemática suficiente para o raciocínio que me parece que aí vem?
— Nada, Groucho, usemos apenas a imaginação. Um jogo assim tem combinatórias que cheguem para o universo inteiro, mas suponho que matematicamente, ou será estatisticamente?, é possível dizer-se que todas as combinatórias acabarão por sair.
— Suponhamos que sim.
— Chamemos a isso a lei interna do jogo. Para que as combinatórias se realizem, é preciso apenas que alguém lance os dados.
— Boa piada, estou a ver. Mozart e Picasso e Joyce como jogadores de dados...
— Mas o ponto é que desde que alguém lance os dados, não importa quem, as combinatórias saem.
— E por isso você diz que se Mozart não tivesse existido, um outro compositor, ou um conjunto de compositores, teriam necessariamente realizado todas as obras que Mozart realizou.
— Nota por nota, Groucho.
— Não posso dizer que esteja convencido, nem que não seja metafísico. Mas isso deixa-o a si em que lugar do jogo?
— Como assim?
— Você vai lançar os dados, Sr. Mourão?
— Mas é isso que lhe estou a explicar, Groucho, a pergunta, como pergunta de responsabilidade por um destino qualquer da arte, não tem sentido. Podemos jantar tranquilamente, está a ver?
— Sim, mas em relação a si, só a si mesmo?
— Ora, Groucho, já viu quantos milhões somos, hoje? De alguma forma, todos nós lançamos os dados. Sai muita coisa repetida, não vale a pena perder o sono com isso.
— Um metafísico tranquilo, estou a ver.
— E que tal este tofu, Groucho? Não comia disto lá no clube, pois não?
Continuam a falar alto, animadamente. Não voltam ao assunto.

Casa de férias 5, adenda final



— Ainda preocupado com o kairos, Groucho?
— De todo. Percebi qual é a grande vantagem, ou pelo menos uma das grandes vantagens, da literatura e da arte face à vida.
— Ora venha de lá mais um lugar comum...
— De facto, será um lugar comum. Mas sabe que isto de vir a ser comum também tem muito que se lhe diga...
— Vá, corte os apartes, ao menos que alguém no clube vá directo ao assunto.
— A literatura permite sempre uma terceira inúmera oportunidade.

Casa de férias 4, adenda final


(...) A manhã não é o sol,
É esta atitude dos nervos,

Como se um intérprete obtuso agarrase
Os matizes da viola azul.

Tem de ser esta rapsódia ou nenhuma outra,
A rapsódia das coisas como são.


— Vejo que voltou ao poema original do Wallace Stevens, Groucho.
— Bem prega Frei Tomás...
— E isso quer dizer?..
— Então depois da sua conversa nocturna de ontem, vem-me dizer que voltei ao poema original?
— Queria apenas dizer que...
— Eu percebi, mas o Sr. Mourão é que talvez não. É evidente que não é o mesmo poema. É o mesmo poema depois de eu o ter transformado e destransformado de volta. Faz uma grande diferença.
— Por exemplo?
— Ora olhe bem para lá: não se percebe melhor agora que toda a carga não está na rapsódia das coisas como são mas nos nervos do não sei quantos obtuso?
— Intérprete obtuso.
— Não sei quantos obtuso: wallace obtuso, vergílio obtuso, qualquer um por vir obtuso.
— Se você acha, Groucho...

02 Março 2006

Casa de férias 6, variação



Sala às escuras, iluminada apenas pela luz de fora que entra pela janela. Bebem licor. Olham sempre para a janela, nunca um para o outro.
- Ouça... (pausa) Aquela coisa do poema não é para levar a sério.
- Ora, Groucho, deixe-se disso.
- Mas deixo-me disso porquê? Porque não me levou logo a sério ou porque...
- (interrompendo) Porque isso não interessa coisa nenhuma, se você se levou a sério ou não. Quando muito interessará numa alínea qualquer da psicologia da criação...
- ... ou da ilusão da criação...
- ... mas o que interessa é o que ficou escrito, e isso já não é nada consigo. Só com quem lê.
- Não é meu?
- Para algumas coisas laterais e civis, digamos assim, seria sem dúvida seu. Para o que interessa a quem lê, passou através de si, pouco mais.
- Mas ter passado através do Vergílio Ferreira não é a mesma coisa que ter passado através de outro, pois não?
— Não, seguramente não. (pausa) Coloque a hipótese de que «passar através de» dará o mesmo resultado que transcrever uma música para outros instrumentos ou outro tipo de agrupamentos.
— Hipótese perigosa, Sr. Mourão. Entrevejo uma origem metafísica, um uno, o um, qualquer coisa por esses lados... Nunca ouvi tal coisa no clube...
— Nem o ouvirá de mim, Groucho. Transcreve-se as coisas como são, e tudo o que sabemos do como está nas várias transcrições. Mas sobretudo, sublinhe coisas.
— Pluralidade irredutível...
— E estúpida alegre angustiante enigmática fascinante, essa treta toda até ao fim dos confins e ainda mais para lá... Bom, respira-se melhor assim, enquanto valer a pena respirar.
— O licor é bom...
— E a noite vai de feição, Groucho. Já viu o silêncio que há no prédio?

Casa de férias 5, variação



- Mas claro que pode fazer, Groucho, porque não haveria de poder re-escrever tudo o que existe?
- Não é o poder da potência a que me refiro, é o poder do kairós...
- A oportunidade?
- Sim, a oportunidade. Mas um pouco mais do que isso, também. Alguma coisa parecida com a oportunidade coincidir com o destino.
- Percebo. Quer dizer, parece-me que o percebo. Mas nesse caso esqueça a questão.
- E porquê, se é que se pode saber?
- Porque é uma questão da crítica, não do escrever.
- Mas escrever não é desde logo a crítica de tudo o que foi escrito?
- Claro, Groucho, tem toda a razão. Crítica e homenagem e outras coisas que podemos ler nos ensaios e que os autores sabem muito bem, mesmo que não o saibam segundo a linguagem dos ensaios. Mas escrever só começa depois.
- Depois?
- Depois. (pausa) O problema é que nunca se sabe exactamente quando é que começa o depois. Ou quando já começou a ser depois.
- Percebo, só se sabe muito depois do depois já ter começado.
- É assim que as coisas são.
- Porque são como são.
- Porque são como me são.
- Foi o que eu disse.
- Este silêncio chega-lhe, Groucho?

Casa de férias 4, variação





(...) A manhã é o sol,
Não esta atitude dos nervos,

Como se um intérprete obtuso agarrase
Os matizes da viola azul.

Não tem de ser esta rapsódia nem nenhuma outra,
Apenas a música das coisas como me são.



Variação do Groucho a partir de Wallace Stevens, O homem da viola azul (1937)
depois de uma longa conversa nocturna com o Sr. Mourão acerca de Vergílio Ferreira

01 Março 2006

Casa de férias 6


Mesa encostada à janela, de noite. Bebem chá em silêncio.
Groucho levanta-se e vai lá dentro. Traz «O homem da viola azul», que coloca no parapeito da janela. Faz um gesto, como se fosse iniciar uma frase, mas continua calado. Bebe mais chá. Aponta o livro.

— Se tivesse de falar aos seus alunos sobre as “coisas como elas são”...
(interrompendo) Não tenho.
— Mas se tivesse...
— Não tenho, porque os alunos são tudo menos as coisas como elas são. (pausa) E era você quem queria falar.
— Pois, o kairos... Talvez noutra altura. (pausa longa) Acha que amanhã de manhã haverá silêncio que chegue?

Mourão encolhe os ombros. Acabam o chá. Groucho pega no livro, folheia, lê de onde a onde. Mourão pergunta, olhando para a janela.

— Sabe que faz hoje dez anos que morreu o Vergílio Ferreira?

Groucho fica a olhar para ele. Não diz nada.

Casa de férias 5


- Mas claro que pode falar, Groucho, porque não haveria de poder?
- Não é o poder da potência a que me refiro, é o poder do kairós...
- A oportunidade?
- Sim, a oportunidade. Mas um pouco mais do que isso, também. Alguma coisa parecida com a oportunidade coincidir com o destino.
- Percebo. Quer dizer, parece-me que o percebo.
- Por isso lhe perguntava se podia falar, uma oportunidade e um destino serão a coisa mais solitária do mundo, mas dirigida sempre àquilo que não somos nós.
- Mesmo que se trate de falar de um poema...
- Sobretudo se se trata de falar apenas de um poema.
- Ah, apenas... Nesse caso é preciso criar um silêncio muito grande, melhor logo à noite.

Casa de férias 4




(...) A manhã não é o sol,
É esta atitude dos nervos,

Como se um intérprete obtuso agarrase
Os matizes da viola azul.

Tem de ser esta rapsódia ou nenhuma outra,
A rapsódia das coisas como são.


Wallace Stevens, O homem da viola azul (1937)
Trad. de Maria Adelaide Ramos
Relógio D'Água, 2005

27 Fevereiro 2006

«Dicionário de Soundbytes», por Groucho
















Lusíadas, Os: 1. Segundo Paulo Portas, que os lê com mão diurna e nocturna, fazem parte do nosso código genético. 2. Um/a professor/a do Secundário: «Bom, para o Consílio dos Deuses põe-se os alunos a fazerem a acta dele, e está liquidado. O Pedro e Inês, enfim, passa-se um filme ou leva-se os miúdos em excursão à Quinta das Lágrimas. Para o Baco, umas fotos de lagares e de bêbados. A Ilha dos Amores, diz-se que é uma espécie de Big Brother avant la lettre. E pronto, uff! (o que custa inventar tanta motivação!), podemos passar a coisas mais modernas. Mas depois chega o inferno das Viagens…». 2. Um estudante: «Se encontrasse o Camões na rua, acho que o esfaqueava! Devagarinho, com requinte, rodando-lhe a faca na pança como nos filmes americanos, e dizia-lhe: ‘Ouve lá, meu cabrão, quem te mandou escreveres aquela porra com todos aqueles deuses, e citações, e palavras alatinadas e uma sintaxe que não lembra ao diabo?! Só pra foderes o juízo aos estudantes do básico e do secundário, não foi? Só pra incentivares o sadismo dos professores, aposto? O que vale – e isso não podias tu adivinhar, e é bem feito – é que há bué de «Introduções» aos Lusíadas, e, lendo aquilo, a malta dispensa a leitura aí de 9 cantos e meio. Pois, pois, arregala os olhos, arregala! Tanta sacanice pra nada! Lixaste-te, meu filho da mãe!’». 3. Vasco Graça Moura: «O que falta é divisão de orações! Com esta palermice pedagógica do «prazer» e da «festa» da aprendizagem, os meninos nem aprendem português (e sintaxe) nem fruem o verbo camoniano. Mas claro, os professores preferem falar dessas frioleiras, além de sugerirem que a obra é colonialista e outros endoutrinamentos ideológicos, a ensinarem a beleza, difícil mas compensadora, da grande literatura. Só mesmo com uma kalashnikov!». 4. Camões: «O que eu sofri para escrever o poema, e mesmo para o resgatar das águas… E afinal, mal vi um tostão pela edição. Só de pensar em todos os direitos de autor que perdi até hoje! É de se ficar bem f…! As comodidades que eu não teria com esse dinheirinho… E mulheres, que um poeta não é de ferro… Fui o primeiro Eusébio, vivi antes do tempo dos grandes contratos... Se bem que as edições de agora já são menos minhas que dos comentadores, que saturam aquilo de notas, a ponto de os meus versos desaparecerem debaixo daquela enxurrada filológica. Já ninguém sabe nada de mitologia, nem de História de Portugal, é o que é. Para não falar do latim. Incrível! Ao meu nível, hoje, só mesmo o Graça Moura, que esse, sim, leu tudo e sabe tudo. No meu tempo sempre havia uns 10 como ele. E depois ainda houve o Faria e Sousa, que sabia mais do que eu: até sabia que eu tinha escrito poemas que nunca escrevi. Como me custa contemplar cá do alto esta apagada e vil tristeza! Vá lá que ainda há as odes daquele poeta que ninguém consegue calar, aplicadinho a imitar-me, e que me vai dando umas alegrias. Mas aquela Adília Lopes! Aquele Manuel de Freitas! Poetas?! Ah Gastão, como tens razão! Antes os rappers, que sempre se enraivecem com rima. Mas a gramática, santos deuses, para não falar da métrica…»

Luxo: 1. O mesmo que luxúria (v.). 3. Pecado venial.

Luxúria: 1. O mesmo que luxo (v.). 2. Pecado mortal.

A política cultural do nosso teatro (II)















3. Como se terá percebido, mas convém repetir, não estou a fazer coincidir nesta argumentação «teatro em Portugal» com «teatro português». É obviamente insustentável hoje qualquer posição que se atenha ao cânone nacional de uma literatura, dramática ou não. Mas é igualmente insustentável a posição que supõe que pode haver em Portugal um teatro pedagógico-didáctico, representacional, político, no sentido mais nobre do termo, e tudo o que mais se queira (e, como vimos, quer-se muita coisa), na ausência de um corpus minimamente representativo de literatura dramática portuguesa. De facto, não parece muito admissível a ideia de um «Teatro Nacional» no qual se representasse apenas Ésquilo, Shakespeare, Calderón, Ibsen, Brecht ou Pinter… As adaptações de obras literárias não-dramáticas, o teatro da mais ou menos estrita performance corporal, nada disso afecta o essencial do meu argumento, que aliás não esquece essas e outras possibilidades teatrais.
Refiro-me apenas e ainda à política cultural dominante nos discursos de legitimação do nosso teatro e às suas contradições e impossibilidades. Porque podíamos sempre afirmar, a propósito dessa política, tal como Gustavo Rubim a recenseia, que sendo ela dominada por uma Cena Primitiva que é uma cena da Instrução (cívica, democrática e republicana), ela se vê forçosamente reconduzida a um aparelho escolar que não pode deixar de ser, nos termos em que nos é apresentada (educar os cidadãos para a democracia), de teor nacionalista. Os exemplos cívicos da escola republicana sempre foram, sem contradição, intensamente nacionalistas (a bem de um suplemento probatório, recorde-se o patriotismo republicano do recente candidato Manuel Alegre, com o seu nacionalismo de contrabando, aliás pouco dissimulado). E dizer, em contra-argumentação, que uma tal política cultural se pode (ou deve) coadunar com um teor nacionalista mínimo, sobretudo em tempos de integração europeia, não é também o mesmo que pretender que o possa de todo dispensar. Porque de facto não pode, sob pena de simplesmente cortar os vínculos com o público que essa mesma política foi educando, ou desejando educar, produzindo-se assim uma sociologia do teatro em curto-circuito.
Não é, por outro lado, aceitável a argumentação segundo a qual o nosso teatro, na sua minimização do pedagógico em benefício do performativo, ou na transformação forçosa do performativo em pedagógico, estaria a realizar a terapia pela amnésia de que uma nação com demasiada história necessita para sobreviver - essa amnésia que é uma pré-condição ontológica do performativo, o qual deve esquecer tudo o que ficou para trás no momento em que traz coisas ao mundo. Tal argumento, ainda que sofisticado, não é aceitável pela simples razão de que o teatro português nunca renunciou inteiramente ao lastro histórico do pedagógico: ter apenas Gil Vicente é curto, mas renunciar ao pouco que se tem em favor de um contrato social totalmente empenhado na criação de um palco teatral situado na no man’s land do presente, é algo que nenhuma política das instituições pode pôr em prática, sob pena de auto-dissolução. A adopção de uma tal estratégia seria suicidária por razões de simples política cultural, já que todos os discursos de legitimação de uma prática artística começam – e esta é uma verdade cansada – pelo inventário do património, ainda quando se trate de um inventário largamente ficcionado. E não esqueçamos, a este respeito, a intensa rentabilização escolar de Gil Vicente, seja dentro das paredes das próprias escolas (e muitas vezes como propedêutica a uma dramatização escolar de outros autores, dramáticos ou não), seja como argumento de cativação de públicos escolares pelas companhias teatrais, que em número significativo dependem dos protocolos com as escolas, protocolos firmados por causa de Gil Vicente e, quando muito, do Frei Luís de Sousa (a invenção recente de Felizmente há luar! como texto obrigatório no nosso ensino apenas evidencia, de novo, a debilidade do nosso património dramático), para sobreviverem.

4. O teatro português, contudo, existe, e mesmo para lá dos índices que seriam esperáveis, dada esta situação de debilidade patrimonial, com todas as suas equivocadas consequências no terreno da política teatral. As companhias proliferam, e não apenas nem sobretudo as profissionais, mas todas aquelas que se situam nos territórios da experimentação, com radicação geográfica dispersa mas tenaz. Assim como existe um forte lobby teatral, sobretudo visível em ocasiões em que esteja em pauta a política cultural para as artes (o facto de o teatro exigir «companhias» e, sobretudo, «equipamentos» onerosos e de estes terem sofrido uma acentuada expansão na última década, ajuda decerto a entender essa visibilidade).
Quem assiste aliás a um debate sobre política cultural em Portugal, sabe bem aquilo em que esta situação se traduz: numa colonização imediata e drástica do debate pela «política cultural do teatro», como se, na sua lógica profunda, a política cultural mais não fosse, ou mais não devesse ser, do que uma extensão ao sistema das artes do quadro conceptual da política cultural do teatro, tal como o apresentei no início. Pude assistir a uma impressionante demonstração desta recorrente fenomenologia no debate sobre o tema «O que é a política cultural?», organizado e moderado por Manuel Portela no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, em Novembro do ano transacto, debate aliás amplamente reportado nos média. O que faz aliás muito sentido, tratando-se de «política» cultural, já que o teatro, para o referido quadro conceptual, é arte política a arte política por definição.
De facto, se aceitarmos esse modelo teórico nenhuma outra arte pode competir com o discurso de legitimação pública do teatro. As artes plásticas vivem necessariamente de uma experiência individual, contemplativa e tendencialmente aurática, em contexto museológico, público ou privado. No mundo das artes plásticas, aliás, os fluxos de capital cultural (e, bem entendido, do outro…) funcionam quase que na razão inversa dos discursos de legitimação sócio-política típicos do teatro, assegurando antes educação da sensibilidade e «distinção» pessoal ou institucional, muito longe, em todo o caso, da pedagogia cívica do teatro. A música é obviamente infensa a qualquer legitimação por um discurso próximo do do teatro, já que não educa para a república nem para a democracia, confinando-se antes à tradição da «educação das belas almas» (relembre-se aqui o lugar emblemático da música na estética idealista desde Kant, bem patente em noções como a de «música absoluta»). A literatura encontra-se hoje dependente de um subsector da política cultural, a «política de língua», repartida entre a Educação e os Negócios Estrangeiros, que é no nosso tempo o que resta do projecto burguês moderno de uma «religião laica» cujos textos sagrados a literatura forneceria. Não sendo já nem religião nem humanismo, a literatura é hoje instrumento de políticas como a «lusofonia» ou as da afirmação internacional da nação no circuito dos eventos em que o mercado institucional da cultura é hoje pródigo (Feiras do Livro, Capitais da Cultura, prémios como o Nobel, etc.). Mas é também, como nenhuma outra arte entre nós, património, ou não fossem seus os nomes de Camões (ou d’ Os Lusíadas) e Pessoa (ou da Mensagem), embora seja visível que tal património se encontra num processo de acentuada deslegitimação. O cinema, enfim, nunca conseguiu em Portugal produzir uma legitimação convincente para a sua existência, já que nem é plenamente «património», como a literatura (por óbvia pobreza), nem é educação cívica, como o teatro, sendo a «educação da sensibilidade» um projecto que as estéticas dominantes do cinema tornaram anacrónico. A única real legitimação do cinema entre nós, nas últimas décadas, foi a que nos foi devolvida pelo estrangeiro, entre o circuito dos grandes festivais de cinema e a crítica cinematográfica mais cutting edge: a que viu no nosso cinema, ou melhor, no cinema de Manoel de Oliveira, João César Monteiro, João Botelho, Teresa Villaverde e, mais recentemente, Pedro Costa, a mais perfeita representação da «identidade nacional» portuguesa, representação em torno da qual se foi depois tecendo uma política cultural centrada na exportação. Uma identidade, diga-se, fortemente reificada nos seus termos agónicos e «negativos», e traumática para as novas gerações de cineastas que nela se não reconhecem mas que, apesar da anomia que hoje se apoderou dessa versão identitária, não conseguem produzir uma outra.
Diria, pois, para concluir, que face à pobreza estrutural do nosso teatro, a sua representação político-cultural dominante, denunciada por Gustavo Rubim nos termos em que a tentei reconstituir, me parece uma quase inevitabilidade. Poderia acrescentar que me parece também uma posição de grande inteligência estratégica, na medida em que consegue fazer das fraquezas do nosso teatro a sua grande força: um teatro sem «objectos pedagógicos» não tem alternativa senão fazer do performativo que todo o teatro é a sua grande pedagogia, politizando-a ao máximo, com a ajuda do grande pedagogo do teatro moderno: Brecht. Ao fazê-lo, o nosso teatro não apenas se legitima social e politicamente como ainda, e essa é uma segunda manifestação de inteligência estratégica, consegue subsumir toda a política cultural para as artes na política cultural do teatro, a única que, em rigor, responderia ao espectro mais alargado do funcionamento das artes na polis. O nosso teatro torna-se assim um modelo e um exemplo do funcionamento das artes no espaço público e do que deve ser uma política cultural. Isto explica decerto a sensação de desproporção e distorção que de nós se apodera quando o nosso meio artístico é atravessado por mais uma das cíclicas crises do teatro (vide o recente caso da demissão do director do D. Maria). Não está em causa, obviamente, o direito à manifestação e mesmo à indignação. Está em causa, sim, entender a lógica que faz com que uma arte afectada por debilidades históricas que em número razoável permanecem, consiga uma ocupação do palco mediático que nenhuma outra arte consegue. E, sobretudo, que se consiga fazer passar a ideia de que cada uma das crises do nosso teatro é, ou arrasta, uma crise de todo o edifício das nossas artes, e em especial da sua tradução em «política cultural», coisa que outras artes com problemas análogos aos do teatro de todo não conseguem.
Surpreende, de facto, a forma como o teatro da nossa política cultural é condicionado, senão colonizado, pela política cultural do nosso teatro. A ponto de, no limite, nos interrogarmos se não deveriam todas as artes, entre nós, aspirar à condição do teatro. Sendo o nosso sistema das artes o que é, na sua especificidade histórica, a interrogação não deixa de ser perturbadora, para não dizer caricata. Mas, sobre revelar uma grande inteligência estratégica, esta situação condena, dentro do universo teatral, alternativas conceptuais como as delineadas por Gustavo Rubim a um destino de forçosa menoridade, ou mesmo marginalidade. Se uma tal condenação é ou não, em si mesma, uma outra e prévia demonstração de menoridade, eis o que fica por saber. Mas que, e não posso concordar mais, conviria debater.

«Dicionário de Soundbytes», por Groucho
















Lula da Silva: 1. Começou como bóia-fria (não existe sinónimo satisfatório no português de Portugal: proleta é curto), foi depois líder sindical quase-revolucionário, perdeu duas eleições para a presidência mas perseverou e acabou como Presidente da República do Brasil. 2. Arranjou, para as suas viagens, por questão de dignidade elementar, um Air Force One, embora com nome brasileiro. 3. Está a mudar o Brasil de cima a baixo, provando aquilo que sempre defendeu: que era possível aplicar políticas completamente diferentes das de Fernando Henriques Cardoso. 4. Não fazia a menor ideia do mensalão.

Lusofonia: 1. O Palácio das Necessidades tem muita necessidade dela. 2. Já o Itamaraty não quer saber dela para nada. 3. Com veemência: «Como dizia Pessoa, ‘A minha pátria é a língua portuguesa’!». 4. Abarca uns 200 milhões de falantes, desde que se contem todos os africanos que não falam português. 5. «Podemos e devemos orgulhar-nos dela, mas não do colonialismo, que foi um erro histórico – apesar de termos dado novos mundos ao mundo».

A política cultural do nosso teatro (I)















1. Se há coisa que me deixa ainda mais perplexo do que o «cinema português», essa coisa é o «teatro português». Devo dizer que, assim como não consigo encontrar argumentos que não os do paroquialismo ou do nacionalismo cultural para justificar a leitura e estudo de certos escritores nascidos em Portugal, e tantas vezes apodados de «fundamentais» ou «imperdíveis» pelo jornalismo cultural, pela crítica literária e mesmo pela escola, também nunca consegui comover-me com filmes que fazem do serem realizados por portugueses o seu verdadeiro e único cartão de visita. Há seguramente filmes de Manoel de Oliveira que acrescentam ao cinema universal (Acto da Primavera, por exemplo); e há João César Monteiro; e um ou outro filme de um ou outro realizador (por exemplo, Uma Abelha na Chuva, de Fernando Lopes; Onde jaz o teu sorriso, de Pedro Costa; ou Noite Escura, de João Canijo). No todo, porém, a desproporção entre a real valia do inevitavelmente chamado «cinema português» - em grande medida uma invenção curricular de cursos de cinema, da política de preservação patrimonial da Cinemateca Portuguesa e de uma política cultural centrada na exploração de uma imagem identitária, fortemente reificada, para consumo externo – e o barulho e comoção públicos por ele suscitados, consegue ultrapassar a desproporção entre a magnitude dos novos estádios de futebol do Euro 2004 e a miséria de público que eles melancolicamente albergam a cada duas semanas (e não estou, com este exemplo, a deslocar a questão do cinema português para o plano em que ela imprópria e viciadamente acaba sempre por se colocar – a do público -, deslocação que acaba por produzir, e supostamente legitimar, aberrações como o recente Crime do Padre Amaro).
Quando passamos para o campo do teatro, as coisas parecem tornar-se ainda mais marcianas. Gustavo Rubim, que manifestamente, e um tanto surpreendentemente, para mim, considera o «teatro português» uma coisa muito estimulante, chamou aqui, há tempos, a atenção para uma das manifestações da enfática auto-representação de que se nutrem os intervenientes na nossa cena teatral. Resumindo, numa versão que no entender de Rubim provém da doxografia brechtiana instalada após Abril de 74 (mas que creio remontar já às leituras que sempre se fizeram da intervenção de Garrett na questão do «teatro nacional»), para grande parte da gente do meio o teatro é arte nobre porque republicana, republicana porque democrática, democrática porque cívica, cívica porque didáctica. O teatro é a democracia e a república, já que nele a ágora se representa, num modelo de 1 para 1, em palco. Logo, se o teatro é entre nós débil, é a democracia quem mais sofre com isso pois não há democracia sem a interiorização, pelos cidadãos, dos mecanismos da performatividade teatral que são a própria democracia. O teatro educa e forma cidadãos esclarecidos, i.e., intelectuais aptos a desmontar as ilusões de baixo coturno que a democracia tenta tantas vezes contrabandear. E que melhor didáctica para isto, podemos nós perguntar após o desdobramento dos silogismos felizes de que se faz este entendimento dominante do teatro entre nós, que a da distanciação brechtiana, a qual, aduz com pertinência Rubim, é hoje a banalidade de base das teorias da representação antimiméticas? Mas haverá outras?, é caso para perguntar face ao triunfo esmagador do efeito de estranhamento na arte e cultura de massas (é só ver com atenção os vídeo-clips pop-rock), nos mass media (haverá jornalistas, e jornalismo, não-brechtiano, hoje em dia?), na propaganda política, etc.
Ciclicamente, e sobretudo em momentos de crise e comoção, somos revisitados por estas concepções simultaneamente didácticas, políticas e, não há como não o dizer, algo deslocadas e megalómanas, do papel social e político do teatro. É decerto inútil recordar, neste contexto, que uma arte não se confunde com uma antropologia, por isso que (i) a arte não é nunca a vida, mesmo quando se esforça por imitá-la (princípio, ou banalidade, que vale tanto para antropologias como para sociologias); e que (ii) numa arte se podem exprimir antropologias as mais diversas e mesmo contraditórias, realistas ou fantasistas, didácticas ou lúdicas, cívicas ou anticívicas, etc.
Mas é sobretudo difícil não adivinhar nesta auto-representação do teatro como magia sócio-política uma das várias estratégias de compensação daquilo que é a menoridade histórica desta arte entre nós. Por outras palavras, o problema residiria não tanto nem exactamente na debilidade da nossa tradição teatral mas na de uma sociedade que, ao desprezá-la, tem o que merece: não a tradição débil antes referida (nenhum membro da comunidade teatral o admitiria sem ressalva, sob pena de se auto-refutar nesse passo) mas a sociedade amputada (do teatro e, por extensão, da sua «educação para a democracia») que supostamente é, em perspectiva histórica, a nossa.
Esta estratégia compensa de muita coisa, e na aparência resolve mesmo todos os problemas do nosso teatro. Comecemos pelo fim. Desde logo, fica resolvida a questão da menoridade e, o que seria inevitável mas talvez não, a das origens várias dela. Se o teatro é uma paideia, então é um crime político-educativo amputar uma sociedade dessa paideia. É estrita obrigação da sociedade resolver um problema sem cuja resolução não haverá plenamente sociedade mas apenas um arremedo dela. O problema, antes de ser cultural, ou mesmo artístico, é pois sócio-político, pelo que cabe estritamente a quem governa zelar por esta versão melhorada da coisa pública; a não ser que se prefira, por deliberado obscurantismo, uma versão não-melhorada da coisa pública (limito-me a reproduzir aqui um tropo recorrente no discurso reivindicativo do nosso teatro: o do premeditado obscurantismo dos poderes). Não espanta que daqui decorra, sobretudo nos sectores mais crítica e politicamente empenhados, uma relação com o Estado que, no que concerne à reivindicação de apoios à criação, nunca descola verdadeiramente de uma posição de «direito natural», publicamente traduzida numa «retórica da arrogância» que as instâncias de mediação do campo cultural – críticos, jornalistas, etc. – em rigor nunca questionam. E nunca questionam porque, como é tão evidente, aceitam sem ressalva o fundamento político-cultural, ou didáctico-cívico, dessa retórica, fundamento sem o qual a sua actividade nem parece ser pensável.

2. Sendo essa posição seguramente debatível, como por definição todo o direito natural, o meu ponto é contudo outro: esta perspectiva «educativa» do teatro, que é uma injunção feita ao Estado sem possibilidade de recurso para segunda instância, é provavelmente a melhor estratégia, senão mesmo a única, para minimizar o problema da menoridade histórica do nosso teatro. Digamos que ela subalterniza decisivamente a História, e os seus conteúdos ensináveis em disciplinas de «História do Teatro Português», em favor da performatividade, que é como quem diz, em favor do presente. Trata-se de fazer teatro, de fazer teatro em Portugal (o que é e, obviamente, não é igual a «fazer teatro português») mas, mais relevante, trata-se de «fazer a nação», por meio da única arte que em rigor permite fazê-la, já que o teatro é o performativo em acto e em exemplo: ele é a história do presente desenrolando-se à nossa frente. O problema, que o nosso meio teatral parece achar um pequeno problema, ou um problema pragmaticamente dispensável, é que do mesmo passo a questão do teatro, por mais estratégias brechtianas que se activem, torna-se uma questão estritamente política e, ironia das ironias, obrigadamente representacional: o teatro representaria a vontade (como diria Renan) que a nação tem de o ser na medida em que a nação, como o teatro, se reinventa e faz todos os dias. Para o meio teatral português, a nação teria adoptado o ponto de vista da cegueira, renunciando à sua mais fiel representação, o teatro – ou submetendo-o a uma lógica de sobrevivência na penúria, que iria dar no mesmo.
O ponto aberrante desta argumentação, contudo, reside no facto de que o nosso teatro só pode produzir uma representação fidedigna da nação na medida em que opte inteiramente pelo performativo em detrimento do pedagógico que ela também constitui (sigo aqui, como se terá percebido, a discriminação de Homi Bhabha entre pedagógico e performativo na temporalidade disjuntiva da nação). O nosso teatro, digamos assim, tem historicamente pouco a ensinar, razão pela qual não pode deixar de subalternizar o pedagógico em favor do performativo. E tem pouco a ensinar porque se é verdade que tem muita história, não é menos verdade que muito pouca dessa história é transformável em «objecto pedagógico».
Convirá esclarecer que não confundo teatro com texto dramático, como é óbvio. Mas também não aceito a desonestidade teórica e intelectual implícita numa discriminação rígida e absoluta entre teatro e literatura dramática, a qual é entre nós mais uma das estratégias de ressalva de um património demasiado pobre para novas descobertas das Américas, mesmo que em virtude de novos métodos centrados ou na semiótica teatral ou na panaceia universal da performatividade. A pobreza patrimonial do teatro português é antes de mais a pobreza da nossa literatura dramática, e quanto a isso não há volta a dar à questão. O próprio Gil Vicente não dá para tudo, desde logo porque um primitivo não permite as reapropriações e modernizações de um Shakespeare (e não deixa de ser significativo que a mais poderosa modernização de Gil Vicente no período contemporâneo tenha consistido na sua releitura a partir de… Brecht). E o que vem depois, com as excepções conhecidas, não faz da nossa literatura dramática uma arte menos descontínua do que, por exemplo, a música erudita, pese embora a «Escola de Évora» ou outros segmentos mais ou menos exumáveis.
Dizia-me há dias um colega, a propósito das reformas que se têm verificado nos cursos de Línguas e Literaturas Modernas e que têm vitimado a carga curricular de Literatura Portuguesa, que bem vistas as coisas não se percebia por que razão, senão pela do velho e relho nacionalismo, essa diminuição é tão ressentida pelos professores da disciplina. Afinal de contas, a literatura portuguesa é, como disse memoravelmente Antonio Candido no «Prefácio» à sua Formação da Literatura Brasileira, um «arbusto de segunda ordem no jardim das Musas». Entende-se que nos esforcemos por confrontar os alunos com os textos de Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, Camões, o Padre Vieira, algum Garrett, Camilo, Eça, Cesário Verde, Camilo Pessanha, Pessoa. Fora disto, não se vê o que seja perda absoluta e irredimível. Por que razão, aliás, nos doemos tanto por não se estudar António Ferreira, D. Francisco Manuel de Melo, Herculano, Antero ou Nobre e nada nos custa que os nossos alunos não leiam Homero ou Virgílio, Petrarca ou Dante, Cervantes, Milton ou Blake, Strindberg, Dostoievski ou Beckett, e mesmo João Cabral de Melo Neto ou Guimarães Rosa (este último substituído nos manuais escolares por essa sua derivação pós-colonial que é Mia Couto)?
No caso da nossa literatura dramática, dizia-me ainda esse colega, é evidente que se perde se não se ler Ibsen – mas, com franqueza, até se ganha se não se ler Bernardo Santareno. Dito isto, a situação portuguesa não é a mesma na literatura dramática que na restante, a qual tem Camões, Pessoa ou Vieira. Mas, esclareço, não se trata apenas de confrontar versões mais ou menos robustas do cânone. De facto, as consequências desta situação de pobreza textual são duplamente gravosas no caso do teatro, quero dizer, da sua situação sociológica e do seu desejado alcance sócio-político. Em primeiro lugar, e pese embora algumas das estratégias de compensação antes referidas, é empiricamente observável que os países em que existe uma forte tradição teatral são aqueles que possuem uma também forte tradição de literatura dramática, pelo que todas essas estratégias conhecem óbvios limites. Por exemplo, na habituação inter-geracional ao acto de «ir ao teatro» ver novas encenações de clássicos, os quais, até por mobilização do aparelho escolar, começam sempre por ser «os nossos clássicos». Ou seja, a inexistência de uma literatura dramática rica, que além do mais os cidadãos-leitores se habituem a ler e reler, antes e depois de a ver dramatizada em palco (e, contra as evidências da doxa, relembremos que o «teatro», enquanto texto, também é para ler: Shakespeare sempre foi um dos autores mais lidos da literatura ocidental), inibe, no caso português, uma sociologia do espectáculo homóloga à daqueles países em que a situação da literatura dramática é outra. Pretender que esta situação se altere drasticamente por injecção de capitais, públicos na sua fatal maioria, é talvez um desejo inevitável mas é seguramente pouco razoável pensar que ela alguma vez se possa vir a alterar significativamente, sendo a nossa produção dramática, a antiga e a contemporânea, o que é.
Em segundo lugar, a debilidade patrimonial da nossa literatura dramática afecta decisivamente o potencial representacional do nosso teatro. Como vimos antes, trata-se, por esta razão, de um teatro com poucos objectos pedagógicos, e daí a sua decidida deslocação para o terreno do performativo político da nação. Mas esta deslocação inscreve uma decisiva aporia no corpo político do nosso teatro: a que resulta de ele renunciar, de facto, a representar a fundura histórica de uma nação com demasiada história ensinável, ao invés do que simetricamente ocorre com o nosso teatro (Gil Vicente, mais uma vez, não dá para tudo; duas peças do Judeu e outras duas de Garrett não são o bastante para mudar significativamente o panorama). Digamos que o primado do performativo no teatro português, que lhe assigna o imperativo de representar a história do presente, é um imperativo representacional por defeito. O nosso teatro deter-se-ia assim no presente (na pedagogia do presente) porque nada tem de comparável a oferecer no passado; e o performativo seria assim a sua verdadeira pedagogia. Sobretudo, nada tem de comparável à arte à qual a escola sempre cometeu a tarefa de acompanhar a pedagogia da nação: a literatura, e o seu emblema para todos estes efeitos, Os Lusíadas (ou, modernamente, as Viagens na minha terra).

26 Fevereiro 2006

Raspar de novo, nº12*




Wim Delvoye, Euterpe, 2001/2002
* Esfregar os olhos,
render 50 unidades de informação p/segundo.

Raspar de novo, nº11



Wim Delvoye, Lick 3, 2000

Raspar de novo, nº10



Wim Delvoye, Kiss 2, 2001

Raspar de novo, nº9



Wim Delvoye, Kiss 3, 2000

O Grande Doutrinador

É o que dá, atrasarmo-nos na revista dos blogues...
O que eu penso, sem tirar nem pôr, da falta de pudor com que José Manuel Fernandes colocou, ao serviço da sua agenda política, o Público, confundindo o cargo de Director com o de Grande Doutrinador Neoconservador, está já há alguns dias dito, de modo inexcedível, aqui.

25 Fevereiro 2006

Casa de férias 3


— Acha mesmo, Groucho? (pausa) Olhe que não sei...
— Não sabe ou não acha? Ou acha, mas não completamente?
— Bom...
— Era o que me parecia, resposta típica de um intelectual quando o intelecto é apanhado em território desconhecido.
— Vejo que lhe está a fazer bem o descanso, Groucho...
— Nem imagina quanto! (para o cão) Anda, vamos às compras.

24 Fevereiro 2006

«Dicionário de Soundbytes», por Groucho















Louras: São todas burras, à excepção de Maria Filomena Mónica e Inês Pedrosa.

Lourenço, Eduardo: 1. Um autor de livros fininhos, no dizer de Vasco Pulido Valente. 2. Um autor de artigos de jornal longos e complicativos. 3. Constrangido: «Gosto de o ler, aprende-se sempre com ele, mas podia ser mais parcimonioso no uso das metáforas… E escrever frases mais curtas.» 4. Biógrafo espiritual de Fernando Pessoa, defende que o poeta era primo direito de Ludwig, rei da Baviera. 5. Como o poeta, tem uma razoável colecção de heterónimos: existencialista católico, intelectual de esquerda, mestre pensador, heterodoxo, emigrante, congressista, opinador político, crítico literário, francófilo, doutorado honoris causa pela Universidade de Coimbra, etc. 6. Como crítico, defende que qualquer obra de criação literária, por mais merdosa que seja, vale mais do que o mais brilhante dos ensaios críticos. 7. Com um sorriso cúmplice: «Ele já me confessou que é tudo fita…» 8. Acha que Portugal é um labirinto automóvel e que os portugueses têm identidade a mais e tino a menos. 9. Afirmou, num livro desassombrado publicado em pleno PREC, que «O fascismo nunca existiu!». Vera Lagoa concordou logo. 10. «Já reparou que está cada vez mais parecido fisicamente com o Salazar? Até a vozinha, carago!»

Os últimos moicanos (II)















- Mouchão, é?
- Pois, foi o que saiu agora do caixote… Mouchão 1988.
- Não fica atrás do outro, amigo Silvestre. [Deita um pouco no copo e leva-o à boca. Meditativo:] Chocolate, fruta exuberante em passa, toque de fumo, resinas aromáticas balsâmicas. Na boca [bochecha e saboreia] é tipo colosso, cheio e muito vigoroso, taninos redondos…
- …Ó Mourão, que se passa consigo?! Está sob influência?
- Atão não estou, Silvestre? Isto é um verdadeiro alucinogéneo!
- E se discorrêssemos antes sobre o Bambi II?
- O vinho também é Natureza, Silvestre!
- Sobre isso, tenho as minhas dúvidas. Viu o Mondovino? Qual terroir, qual quê! Como diz aquele viticultor francês entradote, já não há vinho, só há enólogos! Com tecnologia adequada, qualquer videira e qualquer terreno sombrio acabam por dar vinho bebível, da Patagónia ao Japão. Sobretudo porque eles agora são todos iguais.
- Lá isso, tenho as minhas dúvidas. Já bebeu o verde tinto do Minho? À malga, no S. João? Ou a acompanhar a lampreia? A globalização nunca o há-de vergar, como não há-de vergar o nosso Mouchão, e outros que tais. Mas, quanto ao Bambi II: uma versão cansadota da «educação do príncipe», não?
- É. Mas olhe, vê-se
- Eh pá, já reparou como essa expressão, hoje tão usual, é fabulosa, Silvestre? E sem equivalente real noutras artes, que é como quem diz, noutros média. Não tenho ideia que se diga «Lê-se» ou «Ouve-se». Mas diz-se muito «Vê-se…» com o sentido de…
- Lembra-me um aluno que me dizia, quando lhe perguntava como ia indo: «Trabalha-se…». Só que, após alguma conversa inquiridora, chegava-se à conclusão de que a expressão significava exactamente o oposto do seu valor facial. Qualquer coisa como «Faço tudo o que posso para não trabalhar ou para trabalhar o mínimo». Ou seja, esgadanhava-se para não trabalhar. Toda uma filosofia do ócio – melhor: da luta pelo ócio - em apenas uma (muito enganadora) forma verbal. A linguagem é de facto uma forma inadequada de nomeação…
- É boa… Mas já agora, qual é o exacto sentido desse «Vê-se»? Não me quer ajudar?
- Olhe, significa que, neste caso, o Bambi II é um filme honesto, como se diz em inglês.
- Eu a pedir-lhe um sinónimo e o meu amigo a dar-me uma tradução… E isso quer dizer exactamente o quê?
- Que é um filme que não ofende
- Acho que não saímos da tradução.
- Olhe, é como a Disney, hoje em dia: vê-se, é honesta, não ofende. Decerto porque, mais uma vez, o meio é a mensagem e os «desenhos animados» são hoje um meio tecnologicamente obsoleto e expressivamente exausto. Mas o futuro da animação está ailleurs: na Pixar, por exemplo. E eles bem o sabem e por isso a compraram.
- Os dos Monstros & Co?
- Exacto. E, antes disso, do Toy Story, I e II. E outros clássicos do cinema contemporâneo.
- Do cinema de animação contemporâneo, quer o meu amigo dizer?
- Não, não foi lapso: há vários filmes de animação que, estou capaz de garantir, são obras maiores do cinema de hoje. Configurações imaginativas poderosas, e poderosamente novas, curiosamente subordinadas à lógica da alegoria, talvez o tropo maior do cinema de animação contemporâneo, se não desde sempre. O que não surpreende, pois a Disney é uma instituição pedagógica e a alegoria sempre foi um tropo disponível para funções educativas. Por exemplo, para aprender o que é o capitalismo de hoje, com corporações empresariais a funcionar em rede e as estratégias para sufocar a concorrência, nada melhor do que Monstros & Co ou Robôs, dois filmes mais intensamente políticos do que os de George Clooney. Mas olhe que Monstros & Co tem momentos intensamente borgeanos (o «mergulho» no arquivo das portas é uma fabulosa visita à Biblioteca de Babel) e Robôs propõe uma releitura da luta de classes que oculta uma agenda tão pouco oculta quanto perturbadora: a de uma biopolítica em que o humano é apenas um resíduo, ou vestígio, low tech. A vitória do «princípio da sucata», no final do filme, é apaziguadora e permite o melodrama, mas não deixa de insinuar, um tanto contra as boas intenções do filme, que o humanismo é o encantamento pela ferrugem. Pela sucata do humano…
- OK, o Bambi II é também coisa política: ensino da «distinção» aristocrática, transmissão traumática do poder (é preciso expor-se ao perigo, e ao perigo de morte, para deveras vir a ser príncipe), etc. Mas a minha costela de prof. é mais sensível ao lado pedagógico de tudo isso, sabe? Uma pedagogia ainda rousseauniana, reparou? O príncipe cresce ao seu ritmo natural de veado, que aliás conflitua com o ritmo de crescimento exigido ao príncipe, enquanto princípio e fundação do Estado. O crescimento do príncipe enquanto príncipe deveria ir mais depressa que o seu crescimento enquanto veado. Estão em pauta os dois corpos do príncipe, digamos. Por isso ele é posto em causa pelo outro jovem veado, que já dispõe de umas armações embrionárias, ao contrário do príncipe, que chega, por isso, a ser desconsiderado como «menina». Esse veado concorrencial é provavelmente o ponto crítico da teoria da educação do príncipe no Bambi II. Ele acelera a educação do príncipe, ainda que contra a voz profunda da Natureza, que por intermédio de uma série de provas e provações lhe vai fazendo ver que ainda está muito… verde. Vide a cena em que fica aterrorizado com o primeiro ataque dos cães e é salvo pelo pai in extremis, ou a do porco-espinho que habita o tronco que faz de ponte sobre o riacho e não só o não deixa passar como o castiga dolorosamente.
- Mas acha que o ritmo rousseauniano triunfa? Lembro-lhe que o príncipe se afirma como tal, no clímax final contra os cães, sem dispor ainda de armações. Ou seja, o corpo do príncipe triunfa aí, por precocidade e, logo, antecipação, sobre o corpo do veado.
- É verdade. Mas olhe que o crescimento, ainda que em ritmo natural, não se faz sem saltos, mais ou menos dolorosos. Assim como aquelas horas nocturnas em que as crianças acordam a chorar porque o corpo lhes está a crescer mais uns milímetros: sendo processo natural, não deixa de ser uma descontinuidade que dói. Assim, após várias provas de iniciação o príncipe está preparado, ainda que o não saiba, para a prova viril. E, como se lembra, logo após triunfar sobre os cães, na cena de harmonia final, já dispõe de umas embrionárias armações: a prova que o fez nascer como príncipe, fê-lo também, logo a seguir, mas em momentos não coincidentes, nascer como macho. Repare que, e esse é o momento da correcção política enquanto pedagogia conatural à Disney, o veado concorrente, que parece atingir a virilidade mais cedo, acobarda-se na hora H, demonstrando que a virilidade proclamada aos sete ventos é só isso mesmo: uma proclamação inconsequente. O próprio do príncipe, também e sobretudo nesta questão de identidade sexual, é o decoro com que se não proclama o que profundamente se é.
- Falta-nos falar da cena familiar e do papel do pai enquanto educador. Um dos aspectos menos convincentes do filme, pareceu-me. O pai é alguém que hesita, tenta transferir o seu papel para outrem (uma corça mãe adoptiva), recupera-o contrafeito…
- Pois a mim parece-me um movimento narrativo assaz coerente. Muito mimético de uma certa configuração paterna, quer por ausência de mãe quer por uma posição indecisa, transicional, na narrativa moderna (em rigor, pós-moderna) da reconfiguração do papel afectivo-educativo do pai. Desconfio que há muitos pais, a partir dos 40, que se revêem na personagem, por isso mesmo que referiu. Mas com tanta conversa estou ressequido, amigo Silvestre…
- Ok, já percebi. Chegue aí o copo.
- Obrigado. [Bebe mais um gole, saboreando lentamente] Já pensou no desastre que seria instalar uma central nuclear ao pé de terrenos aptos a produzir coisas como esta? Os riscos que daí adviriam para a nossa identidade nacional no futuro?
- Nem me fale, Mourão! Nuclear não, obrigado!
- Nuclear não, Mouchão sim!
- Nem mais! Como diria o pai do Bambi, se lho déssemos a provar, Nuclear não, Mouchão sim! Nuclear não, Mouchão sim!
[Levantam-se, andam à volta da sala e depois saem, com os copos na mão, entoando cada vez mais convictamente a palavra de ordem]

23 Fevereiro 2006

Multiplex 3 (take 3)

— Não olhe agora, Groucho, deixe-a sentar-se.
(pausa; continuam a tomar café)
— Olhe agora, Groucho, mas devagar, seja discreto que isto é uma terra pequena.
(Groucho olha, depois continua a tomar café)
— Não diz nada, Groucho?
— Digo que é um animal humano bonito. E dito isto, não percebo de todo a sua excitação.
— Mas não lhe parece uma presença arrebatadora? Não acha que em determinadas circunstâncias um homem pode abandonar tudo para a seguir? E note que eu penso que o contrário também pode acontecer, de uma mulher para um homem, ou entre homens ou entre...
(interrompendo) Percebo perfeitamente o seu ponto.
(pausa, Groucho toma o último gole de café)
.
— Mas que raio, Groucho, estou a tentar voltar à conversa de...
(interrompendo) Percebo perfeitamente o seu ponto, repito. É análogo daquela tese que diz que a beleza é uma armadilha da natureza para pôr um homem em pé.
— Mas que raio de metáfora machista é...
(interrompendo) E note que, tal como o Sr. Mourão, penso igualmente que a metáfora se pode aplicar a qualquer uma das combinações que enunciou. É um modo algo infeliz de dizer, mas apenas isso.
— E então em que ficamos, Groucho?
— Ficamos na mesma, senhor. Melhor, tenho de concluir em termos mais universais: Decididamente, os humanos não percebem nada.
— Arre, Groucho, você hoje está intratável.

Multiplex 3 (take 4)

— Groucho, podia explicar-se um pouco melhor?
— Mas é simples, senhor. Já trabalhei no cinema, sei como se produz a beleza, sei a diferença entre a imagem que fica na tela e as pessoas reais que...
(interrompendo) Mas aquela mulher no café, por exemplo, era real.
— Então tenho de dizer que essa realidade não me interessa.
— Porque?..
— Olhe, interessa-me a Gata Borralheira, é isso. Interessam-me as pessoas cansadas, sujas, um pouco vencidas pela vida. Interessa-me não a beleza, mas a cicatriz que torna a beleza humana.
— Groucho, você anda a ler demais!.. Mas mesmo nisso da Gata Borralheira, se não fosse o sapatinho, como é que o príncipe...
(interrompendo) É o que eu digo: como os humanos não percebem nada, precisam de umas próteses para o entendimento.
— Como metáforas à custa de sapatinhos, é isso?
— Ou tesão à custa de imagens, dá no mesmo. Mas depois esquecem-se que as metáforas são metáforas, e de repente acham que estão no estado de natureza.
— Chiça, homem, lá se vai o encanto todo da Scarlett!.. E eu aqui a pensar que o clown metafísico era eu...
— Lamento. (pausa) Podemos ir agora jantar? Descansadamente, sem olhar para outras mesas?..

«Dicionário de Soundbytes», por Groucho















Lopes, Adília: 1. Os gatos dela gostam (ou gostavam?) de brincar com as baratas lá de casa. 2. Diziam que só publicava livros fininhos mas a verdade é que quando os reuniu todos na sua Obra, tinha um tijolo tão gordo como o de Gastão Cruz (ou de Fernando Pinto do Amaral). 3. É muito religiosa mas aprecia a blasfémia e diz, por exemplo, que a osga lá na cozinha é Cristo e que a barata é a irmã Lúcia. 4. «Diz muitos palavrões nos poemas mas é bem educada. Também fala muito em foder mas é casta». 5. Há quem ache que é uma artista pop mas ela revê-se antes na Body Art. 6. «Se aquilo é poesia, com franqueza! Toda a obra junta não vale um poema - corrijo: um verso! - do Torga.» 7. O único escândalo vivo da literatura portuguesa, aquele que todos gostam de arrumar sugerindo que «não bate bem».

Louçã, Francisco: 1. Não é o líder do Bloco de Esquerda, pois lá não há disso. 2. Ao contrário de Paulo Portas, sabe o que é comover-se com o sorriso de uma criança. 3. Ao contrário do menino Jesus, sabe muito de Finanças e tem biblioteca. 4. Não foi eleito presidente, mas ficou lá perto. 5. Perscrutando o futuro, de olhos semicerrados: «Ainda lá vai».

Ter razão antes de tempo

- Está? Sr. Silvestre?
- Sim?
- É o Groucho, de Viana.
- O Groucho de Viana?!
- O Groucho, de Viana, senhor. Com vírgula no meio.
- Ah bom, percebo. E então a que devo esta honra, meu caro?
- Leu o Público de ontem, senhor?
- Não, porquê? Não me diga que já cá temos a gripe das aves!
- Não, não, afaste pra lá esse cálice. Era por causa da coluna do Sr. Prado Coelho.
- E então?
- Chamava-se «Teu corpo está a nevar»…
- É sobre a Serra da Estrela?
- Não, senhor, é sobre Tolentino Mendonça, e é verso dele, que EPC analisa: «Reparem: não é o meu corpo que neva mas o teu. Para Tolentino de Mendonça a questão do corpo é fundamental. Não apenas do corpo do outro mas também do corpo do outro». Sempre pedagógico: reparou no «reparem»?
- E há mais?
- Sim, muitos versos citados e lidos. A questão é justamente essa, senhor.
- Não sei se o acompanho…
- Lembra-se daquele PS ao balanço de 2005 em que ele se referia a «um livro de poemas que vejo referido mas nunca me chegou às mãos: A Estrada Branca de José Tolentino Mendonça»?
- Sim, claro.
- Pois dá ideia que o livro já lhe chegou às mãos.
- Os CTT são das coisas que melhor funcionam neste país, Groucho.
- Pois, mas a questão também ainda não é exactamente essa.
- Ena, isso é que é diferir a questão… Diga lá então qual é a dita, ó Hitchcock de Viana (sem vírgula).
- A questão é que, lendo os versos, a gente percebe que EPC tinha toda a razão em incluir o livro no balanço de 2005, e mesmo sem o ler. Logo, acho que lhe devemos um gesto de contrição.
- Se o meu amigo o diz… Está a ver como eu tinha razão? Os grandes críticos nem precisam de ler os livros para lhes reconhecer a valia. São seres oraculares.
- E ainda há quem diga mal de Gaspar Simões por ele, ao que consta, ter também esse dom…
- Isto é um país de gente medíocre e invejosa, Groucho. E maledicente, ainda por cima.
- E então agora, com a proliferação de blogues, o que para aí vai de má-língua…
- Ui, ui…

22 Fevereiro 2006

Multiplex 3 (take 2)


— Decididamente, os homens não percebem nada.
— Não o sabia tão descrente da humanidade, Groucho.
— Referia-me apenas aos machos da humanidade, senhor.
— Conte lá, Groucho, alivie a sua alma.
— Lembra-se quando ela lhe diz que os homens costumavam julgar que ela tinha alguma coisa de especial?
— Sim, ele pergunta-lhe: e tem? E ela responde que nunca nenhum lhe pediu o dinheiro de volta. É um dialogo típico para introduzir a mulher fatal, qual é o problema?
— O problema é a afirmação dela, Sr. Mourão. É um aviso claro, é uma forma de dizer que ela não tem nada de especial, que quer o que é suposto as mulheres quererem, pelo menos a maioria delas.
— E isso que as mulheres querem, na sua douta opinião, é o quê, Groucho?
— Não ironize à minha custa, senhor, estou só a falar do filme... No final, ela quer ter o filho, um marido, e um pequeno mundo deles. E isso ela já sabe desde o início, quer dizer, ela sabe que foi sempre isso que quis.
— Mas uma mulher daquelas, Groucho...
— Uma mulher daquelas é apenas o espelho infantil dos machos, mas que se vai recusando a ser apenas isso. Por isso ela avisa.
— Já não há mais espaço para a mulher fatal, é o que me está a dizer?
— Decididamente, os homens não percebem nada, é o que lhe estou a dizer.
— Nesse caso, nunca perceberam.
— Também serve.

21 Fevereiro 2006

Racionalidade, racionalidades: o debate Sahlins-Obeyesekere (1)

Como refere Robert Borofsky[1], o célebre debate Sahlins-Obeyesekere é bem mais que uma mera “tempestade num copo de água”.[2] Ele extravasa em muito o significado “local” circunscrito pelas etnografias e contextos históricos em que se move, detendo significados e implicações cuja inscrição no campo das teorizações antropológicas convém ponderar.
Para lá dos argumentos esgrimidos em torno de uma suposta qualidade divina do capitão Cook – foi o capitão Cook entendido pelos havaianos nos anos de 1778 e 1779 como uma manifestação do seu akua (termo por vezes traduzido para o inglês por “deus”) Lono? -, o debate levanta todo um conjunto de problemas que exigem que repensemos não apenas o alcance epistemológico e metodológico das tradições antropológicas, mas também o lugar que auferem, num plano mais geral, as nossas construções sobre a diferença cultural e sobre a imagem que produzimos do passado. Borofsky delimita assim algumas desses problemas de alcance mais geral no seu ensaio de síntese sobre o debate, problemas que podem ser enunciados muito soltamente nestes termos:
Em que grau as políticas da identidade no presente exigem que reconsideremos o esforço etnográfico e antropológico?
Quem tem o direito de falar sobre quem (sobre outros, por outros) através das fronteiras da diferença no presente?
Como é que podemos avaliar proposições conflitivas sobre o passado de alguém?
Por último, um problema que recorta os que enunciei atrás (que o mapa de Borofsky ataca só tangencialmente), e que constitui o cerne do que me proponho fazer aqui, como poderemos “compreender” os universos simbólicos e práticos de outros, senão presumirmos não apenas uma “racionalidade” pan-humana mas também a possibilidade de traduzirmos culturas? O que nos lança no debate acerca da relação entre “mente” e “cultura” – um debate que nunca encontrou no interior das tradições antropológicas senão respostas imprecisas, sectoriais (senão mesmo paroquiais) e cujos desenvolvimentos recentes no campo das ciências da cognição tem de ser tomado em linha de conta. Uma das implicações a jusante de tudo isto será porventura o reequacionamento da aporia cérebro-mente/corpo, ou, de forma mais compreensiva, o debate natureza-cultura. Por fim, o que este último problema exige é também uma reapreciação transversal dos termos em que se colocam tópicos como sejam o das epistemologias convocadas, sejam elas de recorte racionalista ou de recorte relativista (que são, em grande medida, e a usar o chavão kuhniano, incomensuráveis, ainda que coexistentes).
É este último problem que me move aqui (que poderíamos articular talvez como aquele que se prende com a racionalidade, a cognição e o relativismo). Seja como for, e antes do mais, first things first, em que consistiu (melhor seria dizer em que consiste, dada a deriva exegética em que se tem desdobrado) o debate?

O debate. Observações iniciais
Em 1992 Gananath Obeyesekere traz a lume o seu The Apotheosis of Captain Cook.[3] O livro pretende desmontar criticamente a seguinte tese:
Quando o grande navegador e “descobridor” da Polinésia inglês James Cook chegou às praias do Havai – à sua principal ilha, Havai’i - no domingo de 17 de Janeiro de 1779 durante o festival de Makahiki, ele terá sido celebrado como o regressado deus Lono. Qualquer história de Havai’i incorpora este “facto”. Em rigor, qualquer narrativa sobre Cook e Havai’i o faz.
Para Obeyesekere, este “facto” foi criado pela imaginação europeia, baseando-se para tal em “modelos míticos” tecidos em torno do “formidável explorador e civilizador que é um deus para os ‘nativos’”.[4] Como escreve Obeyesekere:
A colocá-lo sem cerimónias, duvido que os nativos tenham criado o seu deus europeu; os europeus criaram-no para eles. Este “deus europeu” é um mito de conquista, imperialismo, e civilização – uma tríade que não pode ser facilmente separada.[5]
É durante a terceira expedição de Cook que este chegará ao Havai’i (1776-1779). Neste viagem, Cook – já uma personagem muito famosa pelas suas duas anteriores expedições - tinha como objectivo encontrar a “passagem do Noroeste”, uma passagem navegável que se acreditava atravessar a América do Norte de Este a Oeste e que iria encurtar enormemente a distância nas rotas comerciais entre a Europa e a China. É neste contexto que Cook irá descobrir Havai’i, e será aí que supostamente os nativos irão atribuir-lhe as qualidades do seu benevolente deus Lono que regressava de alhures precisamente a tempo das festividades cíclicas compreendidas pelo Makahiki.[6]
Acerca desta terceira expedição importa avançar com alguns elementos que são lugares muito comuns para os oceanistas, mas que aqui merecem rememoração. A história poderia começar a 6 de Julho de 1776, dois dias depois da Declaração Americana de Independência.[7] As instruções secretas do Almirantado a James Cook, Comandante da chalupa de Sua Majestade Resolution, diz na sua abertura: “Visto que o Conde de Sandwich [patrono da viagem, e o responsável máximo pelo Almirantado inglês] nos transmitiu a Vontade de Sua Majestade de se realizar uma tentativa para encontrar uma passagem pelo mar do Pacífico para o Oceano Atlântico…” A Cook, então com 48 anos, foi atribuído o comando do Resolution e do Discovery para encontrar a passagem do Noroeste através do Ártico. No caminho Cook encontrou as ilhas Havai. Cook avistou Havai’i, circum-navegou a ilha (princípios de Fevereiro de 1778), foi particularmente bem acolhido pelos havaianos, partiu para Norte, e encontrou uma parede de 12 pés de gelo em pleno Verão na extremidade norte do Alasca, regressou, contornou a Havai’i três vezes, sendo novamente bem acolhido, e partiu. O navio de Cook, o Resolution, que havia sido bem preparado para a sua segunda viagem, estava mal preparado para a terceira, já que fora equipado e afinado nos estaleiros de Deptford que se encontravam envoltos em acusações de corrupção e compadrio. Quando saíu do porto apresentava-se mal vedado e com problemas técnicos vários, em particular nos mastros. Assim, após a partida final de Havai’i, um mastro do Resolution quebrou-se em mar alto. Os barcos regressaram a Havai’i para serem confrontados, desta vez, com a hostilidade sistemática dos nativos. Por fim, a escuna do Resolution foi roubada. Cook reagiu agressivamente. Na refrega, ele e mais quatro marinheiros foram assassinados na praia.
Como é que Obeyesekere se interessou por esta história? Qual a posição que ele ocupa no espaço de discussão antropológica, e de que modo é que tal posição nos permite a nós, enquanto leitores, dilucidar os motivos em que se alicerça a sua “estranheza” perante esta narrativa fortemente essencializada e reificada pelos historiadores e etnógrafos das ilhas Havai, onde avulta o antropólogo culturalista americano Marshall Sahlins?
Obeyesekere afirma-se como um antropólogo que trabalha na Universidade de Princeton e um nativo do Sri Lanka. Foi, segundo ele, deste patamar[8] que emergiu o seu interesse por Cook. E é aí que entra Sahlins. Sahlins terá usado este exemplo, o da “apoteose do Capitão Cook”, a usar a expressão de Obeyesekere, para construir uma “teoria estrutural da história”.[9]
Como é que isto funciona em Sahlins?
Em termos etnográficos (mas evitando o detalhe), Cook terá chegado durante o festival de Inverno em que se celebra o regresso do deus Lono de uma terra distante para lá do horizonte. O regresso seria sempre simbólico, mas desta vez ele seria estranhamente real, personificando-se em Cook. Durante o festival, Lono circula em torno da ilha. Cook terá circum-navegado Hawai’i na direcção certa e no tempo certo, sendo tomado como Lono. Porquê então o homicídio? Porque quando o Resolution regressa após o incidente do mastro quebrado em mar alto, o festival de inverno tinha terminado. A desorientação é pois uma condição perigosa:
O capitão inglês partiu nos princípios de Fevereiro de 1779, quase precisamente no dia em que as cerimónias Makahiki fechavam definitivamente. Mas na sua saída para Kahiki, o Resolution partiu [sprung] um mastro, e Cook cometeu a falta ritual de regressar inexplicável e ininteligivelmente. O Grande Navegador estava agora hors catégorie, uma condição perigosa como Leach e Douglas nos ensinaram, e dentro de alguns dias ele estava realmente morto – ainda que alguns sacerdotes de Lono tivéssem perguntado depois se ele regressaria.[10]
Em termos muito gerais, e parafraseando Sahlins, um evento histórico é metáfora de uma realidade mítica, ou, de outro modo, o domínio da contingência é histórico porque é significativo.[11] Ou ainda: “O evento é um acontecimento [happening] interpretado”.[12]
Obeyesekere não é, nas suas próprias palavras, avesso à teorização de Sahlins. O que lhe provocou a sua ira foi o exemplo usado por Sahlins.[13] Assim, quando Sahlins avançou com a proposta de que Cook foi tomado pelo deus Lono num seminário em Universidade de Princeton em 1983, Obeyesekere não conseguiu evocar um único exemplo da sua infância no Sri Lanka em que um estrangeiro tenha sido alguma vez tomado aí como um deus, apesar de uma longa história de contacto entre locais e europeus. Para Obeyesekere estaremos perante uma projecção ocidental, um “modelo mítico”, isto é um mito paradigmático que serve como modelo para a construção de outros tipos de mitos, reportando-se a todo um conjunto de ideias subjacentes (uma estrutura mítica ou um conjunto de mitemas, a usar expressões lévi-straussianas a que Obeyesekere apela) que são usadas em várias formas de narrativa.[14]
Não vou alongar-me no que diz respeito a este aspecto. Cumpre-me apenas acrescentar que Obeyesekere refere-se também na sua argumentação ao carácter “esquivo” destes modelos míticos, chamando-nos à atenção que se Todorov nos diz que se na civilização ocidental o logos se impôs ao mito, para ele, Obeyesekere, “o mito continua a reinar aí sob o estandarte do logos”.[15]

Racionalidade, racionalidades
Um dos eixos da argumentação de Obeyesekere – aquele que nos interessa destacar – prende-se com a suposta “endémica falta de descriminação em nativos cosmologicamente constrangidos na etnografia da Polinésia”[16], fazendo isto apelo a um modelo mítico que consiste basicamente na ideia de que a estruturação simbólica do pensamento nativo é exclusiva e total. Ela exclui formas de pensamento que tendemos a conotar com modos mais racionais de constituição do real. Ela é compreensiva e não admite excepções ao seu quadro de estruturação simbólica (subjacente a isto há, evidentemente, uma concepção holista de cultura que consiste no adágio “diferentes culturas, diferentes racionalidades”[17]). A ideia de que os nativos pensam pré-lógica e misticamente não seria certamente uma invenção de Lévy-Bruhl, mas antes um modelo mítico ocidental actuante ainda hoje e a produzir os seus efeitos no pensamento de antropólogos como Sahlins.[18] O que Obeyesekere, dotado de um conceito menos exclusivista e totalizador ou compreensivo de cultura exige é que se considere a possibilidade das culturas não serem afinal “terminais”, a usar uma expressão de Gellner.[19] O reconhecimento disto faz, segundo ele, cair por terra a identificação entre Cook e Lono partilhada pelos havaianos durante a chegada do navegador inglês.
Obeyesekere defende que se considere o não isomorfismo entre linguagem e cultura, no sentido em que a cultura (tal como pretendem Lévi-Strauss ou Todorov) não funciona como um sistema de signos que estrutura a expriência.[20] Assumi-lo será afinal, e logicamente, afirmar a perpetuação do antigo modelo mítico da mentalidade selvagem à la Lévy-Bruhl. É afirmar tão-só, e até onde consigo perceber, a sobredeterminação dos signos, e propor uma sujeição do evento e da experiência às ordens da estruturação via langue. Seguindo pensadores como Bakhtin, Obeyesekere propõe-nos a proeminência da parole sobre a langue, recusando assim a “inflexibilidade do pensamento cosmológico”.[21] Como ele escreve:
A improvisação não pode ser alheia ao pensamento cosmológico: ele poderá ser intrínseco à sua invenção, prática e performance. Assim que se assumimos que as crenças culturais são múltiplas e em realidade não organizadas num único sistemas de signos, logo poderemos libertar-nos da visão de que “tudo se passa como se […] os signos automática e necessariamente procedessem do mundo que designam” e que deste modo não possuíssem flexibilidade manipulativa.[22]
O que está aqui em jogo é o seu conceito de “racionalidade prática” que Sahlins irá refutar mais tarde: seguindo Max Weber, Obeyesekere propõe-nos através deste termo a noção de que estamos perante “o processo pelo qual os seres humanos reflexivamente acedem às implicações de um problema em termos de critérios práticos”[23], em suma, o modo como se produzem “juízos situacionais”.[24] O acento é colocado na ideia de uma abertura, de um processo. A racionalidade prática a que se refere não é substantiva, antes processual: “um modo de pensar, e não um modo de pensamento”.[25]


[1] Robert Borofsky, 1997, “Cook, Lono, Obeyesekere, and Sahlins”, in Current Anthropology, 38, 2, pp. 255-82.
[2] A expressão de Borofsky é “a tempest in a teapot of exotic details” (p. 255).
[3] Obeyesekere, Gananath, 1997 (1992), The Apotheosis of Captain Cook: European Mythmaking in the Pacific, Princeton, Princeton University Press (2ª edição).
[4] Idem, p. 3.
[5] Idem, ibidem.
[6] Idem, p. 7.
[7] Hacking, Ian, 1999, “The End of Captain Cook”, in The Social Construction of What?, Cambridge (Mass.) & Londres, Harvard University Press, pp. 214-5.
[8] “[T]ese existential predicaments”, a usar a sua expressão (idem, p. 8).
[9] Para isto, ver, sobretudo, Sahlins, Marshall, 1981, Historical Metaphors and Mythical Realities: Structure in the Early History of the Sandwich Islands Kingdom, Ann Arbor, University of Michigan Press, e Sahlins, Marshall, 1985, Islands of History, Chicago, University of Chicago Press.
[10] Sahlins, Islands of History, p. 94.
[11] Idem, p. 108.
[12] Idem, p. 153.
[13] Obeyesekere, The Apotheosis, p. 8.
[14] Idem, p. 10.
[15] Idem, p. 11.
[16] Obeyesekere, The Apotheosis, p. 21.
[17] Obeyesekere, Gananath, 1997, “On De-Sahlinization”, in The Apotheosis, p. 209, p. 209.
[18] Obeyesekere, Gananath, The Apotheosis, p. 15.
[19] Gellner, Ernest, 1998, Language and solitude: Wittgenstein, Malinowski and the Habsburg dilemma, Cambridge, Cambridge U.P., p. 187.
[20] Obeyesekere, The Apotheosis, p. 19.
[21] Idem, p. 19.
[22] Idem, ibidem.
[23] Idem, ibidem.
[24] Idem, ibidem.
[25] Idem, p. 21.

Multiplex 3 (take 1)


— Menos comentários desta vez, Groucho?
— Só mesmo à saída, uma senhora muito alta e indignada, dizendo ao marido: «É indecente, ele devia ter sido castigado!».
— Difícil aceitar a roleta russo da existência...
— Não me diga que também acha que o filme é mesmo sobre a sorte ou o azar de um match-point?
— Que ele quer vencer, é claro, mas em que a sorte ajuda bastante. Mas já vejo que tem outra leitura.
— É verdade que ele vence, mas não sei se aquele ponto é de match ou apenas de partida.
— Mas o título, Groucho...
— Pois... Mas veja bem a última cena, todos reunidos em torno do novo bebé, e ele de fora, como que separado de tudo.
— Remorsos, mas com dinheiro à vista, diria eu.
— Dostoievskiano, prefiro eu dizer. A cena mais dostoievskiana de todas, mais do que aquele diálogo com os fantasmas dos mortos saído directamente do Crime e Castigo.
— Não percebo.
— A grande descoberta de Dostoievski, Sr. Mourão, é a de que os remorsos ou a culpa nos separam de tudo, nos emparedam dentro das nossas pobres categorias. Não é uma questão de bem e mal, é uma questão de não haver terreno comum que permita que nos possamos reconhecer. Ele ganhou, e por isso mesmo perdeu, não pode partilhar com ninguém o que fez, não pode aspirar a que ninguém o reconheça naquilo que fez.
— Vive num inferno, quer você dizer.
— Quero dizer que o inferno é isso e nada mais que isso. E que a roleta russa não é para aqui chamada.
— E disse isso à senhora muito alta e indignada, como você lhe chamou?
— Não, deixá-la primeiro aprender a roleta russa, esta conversa só pode vir depois.

20 Fevereiro 2006

Desdobrando a adivinha

Caro Senhor
Abel Barros Baptista:

Agora que todo este episódio chegou a bom termo, permita-me, não que tente adivinhar a sua adivinha, mas que a desdobre para começar a pensar. Caso em que ponho à sua consideração este outro exemplo, outro porque diferente e não mero acrescento. Trata-se de um autor que muito se baldou para as imunidades da língua — aliás, ao ponto de fazer disso uma das suas marcas autorais — mas que de repente encontra um vírus quiçá demasiado forte. Há um novo professor na aldeia, estamos a muitos anos do processo de Bolonha, and it goes like this:


"Dizia que a aprendizagem se devia fazer escrevendo logo na lousa palavras inteiras designando objectos conhecidos. Escrever por exemplo «pedra», «tijolo», «enxada», «exploração capitalista».
— É um método muito bom
era um método muito bom, as crianças entravam logo no seu mundo, uma enxada eles sabiam o que era. Mas ele tinha outro método que era o mesmo, trabalhado com palavras de impacto muito mais forte. Lá estava ele com o seu impacto, eu ouvia em cima, era uma barulheira infernal. (...)
— É muito positivo — dizia-me ele depois. — As crianças riem, como é próprio da ignorância, mas fixam logo a palavra, nunca mais a esquecem.
Eu também as não esqueci, diziam assim: «cu», «merda», «puta», «car(v)alho», «cagar», «porra», «fo...-se». Eu digo «fo...-se» com pontinhos e «car(v)alho» com um parêntese porque sou ainda um subdesenvolvido moral, mas o professor escrevia por inteiro.
— É muito positivo — dizia-me ele
e havia toda uma desmitificação a fazer dessas palavras. Achei, todavia, que a última que eu disse com pontinhos era muito forte e complicada e perguntei porque é que a ensinava, ele explicou que
— É por causa do hifen."
Vergílio Ferreira, Signo Sinal, 1979, pp. 52-53


Digamos que há aqui, de facto, um problema de “hífen”, de ligação entre a permanência ou a insistência de alguma “condição humana” e a linguagem que a enuncie nas novas “condições simbólicas” em que o termo vanguarda já só quer dizer “o senhor que se segue”. Claro, terá que ser senhor, e ser reconhecido como o que se segue. Mas enquanto houver mundo, é de crer que essa abundância não nos faltará. Por outro lado, nem de vanguarda aqui se tratará, mas da linguagem que pertence a este real, tendo-lhe sempre pertencido. Esta e outras — daí o problema, se o for.
Mas pensemos.

Saudações casmurras

19 Fevereiro 2006

«Dicionário de Soundbytes», por Groucho















Llansol, Maria Gabriela: 1. Lê-se os livros dela e não se percebe bem de que tratam. Mas percebe-se que os travessões são importantes. 2. Para perceber mesmo os livros, consultar António Guerreiro ou João Barrento. Em última instância, Fernando Venâncio.

Lobby gay: 1. Está por toda a parte, da Gulbenkian (sobretudo na dança, em boa hora extinta) ao teatro e à poesia. 2. Controla os média e o governo. 3. Reúne-se conspirativamente em restaurantes caros, no Bairro Alto.

Os últimos moicanos























- Isto está mesmo às moscas…
- Mal temos onde sentar-nos.
- Há ali aqueles caixotes... Antes que os venham buscar, sempre darão para alijarmos o peso do homo erectus.
- Perífrase perigosa, Silvestre…
- Ambígua, sim, tem razão, sobretudo para tipos na meia-idade. Mas enfim, cá estamos. Tome assento, Mourão e faça de conta que está em sua casa.
- Bom, isto sempre foi uma casa de faz de conta, pelo que a diferença não é assim tanta.
- O eco que isto faz! Impressiona, ver as paredes nuas. O meu amigo também é dos que sentem, como os barrocos, a aflição do desnudamento? A decoração como terapia para o horror ao vazio?
- Nem por isso. Sinto-me mais em casa, assim.
- Mais em casa… Percebo. Bebendo um chá com Dona Morte, suponho.
- De bergamotas. Lendo e discutindo a ode do Campos, «Vem Noite antiquíssima e idêntica», etc., nem deve ser desagradável.
- Ocorreu-me agora… [Levanta-se, febril, e pesquisa o caixote onde esta sentado] Ah, ah! Bem me parecia! [Circunvaga o olhar, ansioso, pela sala ainda com caixotes e ferramentas pelo chão. Encontra o que procurava e corre a buscar um formão, em cima de um caixote] Ora aqui está! Deixe-me cá abrir isto. [Ao cabo de alguns esforços, abre a tampa do caixote. Mete a mão lá dentro e tira, primeiro palha, depois uma garrafa] Bem me parecia! Veja bem, amigo Mourão: Barca Velha com 16 anos. Uma caixa dele e de outras preciosidades. Como diria o capitão Haddock, temos aqui combustível para muita conversa.
- Vejo que sim. Vocês tratavam-se bem, caramba. Devia ter-me mudado para cá mais cedo.
- No seu caixote, se não erro, tendo em conta a indicação externa, devem estar os copos. Deixe-me cá abri-lo. [Repete a operação com o formão e tira de lá os copos] Bebamos, então. À nossa.
- À nossa. E à do clube Casmurro!
- Isso é que não sei… Pergunto-me se não devíamos mudar o nome disto para Clube Misantropo. Só duas pessoas, percebe? E sentados em caixotes de mudanças.
- Mas a beber Barca Velha, amigo Silvestre. Não esqueça. Por outro lado, se me permite, na medida em que eles é que fugiram não sei para onde, não são eles os misantropos? É que o novo clube nem permite a arte da conversação, ao que sei. Só monólogos…
- É, parecem os debates da campanha presidencial… Em mais pretensioso e a dar para o pseudo-intelectual.
- Exacto. E por outro lado, na medida em que permanecemos no clube, ainda que despido e quase solitário, não somos nós os verdadeiros e últimos casmurros?
- Os últimos moicanos, amigo Mourão! Tem toda a razão! Os moicanos da casmurrice! Já me sinto possuído do frémito da agonia sublime das espécies em extinção: gestos nobres à beira do abismo, suicídio e redenção. Passe-me aí a garrafa, se não se importa.
- Por quem é. Mas deixe-me só encher antes o copo, que isto é cá uma pomada! [Passa a garrafa e saboreia mais um gole] Travo a canela, bouquet de flores silvestres com…
- Acalme-se, Mourão. [Bebe mais um gole] Bem vistas as coisas, tem toda a razão: somos mesmo os últimos abencerragens do Casmurro.
- A coisa boa é que, a partir de agora, o clube só pode crescer!
- Encontro-o estranhamente optimista. E tomado do proselitismo das espécies em vias de extinção: «Hoje somos poucos, amanhã seremos milhões!» Estou mesmo a ver os dinossauros a dizerem isso no dia seguinte à queda do meteorito… Ora, como podemos nós crescer se nem temos assentos condignos, nem mordomo (aquele homem agora não sai do Minho), nem cheta? Sim, que o cofre está vazio! Aqueles tipos deixaram-nos na falência.
- Mas o cofre alguma vez teve dinheiro? Não me parece que o empreendimento fosse rentável, amigo Silvestre. Só conversa, só conversa, nada de ir directos ao assunto. Ná, não estou a ver que isto pudesse render. E depois, sabe? Antes assim.
- Quem não tem dinheiro não tem vícios? [Serve mais um Barca Velha ao interlocutor, antes de se servir a si]
- Obrigado [Bebe um gole]. Melhor (ou pior). Quem não tem dinheiro nem cadeiras para repousar o corpo – e só tem bebidas espirituosas… - dedica-se à vida do espírito. Parece-me uma boa transacção.
- Sim, em todo o caso melhor do que aquela do Match Point, do Woody Allen, lembra-se? A personagem principal diz que o pai encontrou Deus quando perdeu as duas pernas num acidente, e o futuro cunhado comenta que não lhe parece que tenha sido uma boa transacção. É estranho mas as pessoas não se riem nessa altura... Há poucos casmurros, é o que é. A vida pesa, as pessoas só se riem por desfastio ou quando são apanhadas desprevenidas. Por princípio, preferem não brincar com coisas sérias. E apascentar o ser é coisa bem séria.
- Este tinto, amigo Silvestre, é a casa do ser! E nós somos os autodesignados guardas desta habitação. Desta clareira…
- Ora, isso é que é falar! Mas um humanismo sem amigos é uma contradição nos termos, não é? Só nós dois aqui, os outros auto-exilados algures…
- Não me parece, se percebermos que falamos de um humanismo casmurro: de poucos, para poucos, todos situados no espaço apátrida do pensamento do ser. Da difícil e árdua escuta do ser. A apatridade torna-se assim um destino do mundo.
- Estou a ver, estou a ver, e até me parece bonito! Uma pastoral digital, em que a comunidade se imagina e reconstitui por meio de um conjunto de ciberferramentas. Todos longe, todos perto. Ou da impossibilidade humanista (pós-humanista?) do exílio.
- Nem mais. Como vê, há um futuro para nós. O fundamental é não dramatizar. Afinal de contas, duas pessoas pode parecer pouco, na óptica, sei lá!, do futebol, mas é um princípio de comunidade. Ou irmandade.
- A Irmandade do Anel?
- É mais do tonel, no nosso caso, não é?
- Sabe do que me lembrei agora, Mourão? A propósito de casas do ser, clareiras, irmandades, etc.?
- Diga…
- E se fôssemos ver o Bambi II? Acaba de estrear e, pelas minhas memórias do original como pelas recensões na imprensa, parece-me a melhor propedêutica a tudo isto que temos estado para aqui a tentear: humanismo, espécies em extinção (os veados, os humanistas…), casas do ser. Há agora uma sessão. Se nos despacharmos, ainda chegamos a tempo. Que me diz?
- É pra já, Silvestre! Excelente ideia! Deixe-me só ir buscar o guarda-chuva.
- OK, mas despache-se, que não temos muito tempo.
- Já vou, já vou…

Reunião de condomínio (via Skype)

MP: Pois eu exijo uma reparação imediata! Afinal de contas, todos os senhores assumiram, sem qualquer tipo de prova, que tinha sido eu o autor da usurpação!
OMS: De facto, houve muita leviandade na difusão dessa calúnia, temos de admitir.
LQ: Mas foi o senhor quem levantou a calúnia!
OMS: Peço desculpa?! Eu já deixei claro que fui objecto de uma usurpação de nome na carta em que se produz a calúnia em causa! Exijo uma reparação pela sua calúnia, Sr. Quintais!
FMO: Eh pá, calma lá com isso, que o Sr. Quintais também foi objecto das brincadeiras de mau gosto do usurpador!
ABB: Olha, olha! Por cá, senhor Oliveira? Interrompeu a sua pastoral?
GR: Isto não vai dar em nada… Só remoques, agravos… Ná, acho que regresso às minhas leituras.
PS: A verdade é que as provas pareciam irrefutáveis!
MP: Provas? Quais!? O senhor não vê o CSI? Veja, veja, pode ser que aprenda a distinguir uma prova de uma calúnia.
CA: E se a gente tentasse avançar? Talvez por exclusão de partes? Ora deixem-me cá tentar. O Sr. Portela está portanto eliminado. O Sr. Quintais fazia trabalho de campo à data, estava pois demasiado ocupado. Quanto ao Sr. Baptista…
PS: Alto lá, que não conseguiu apresentar álibi convincente!
CA: Era o que eu ia dizer, caro senhor. Acalme-se. Mas olhe que o mesmo vale para si…
PS: Mas se eu estava, como estou, no estrangeiro!
CA: Ora, com franqueza! Em que é que isso hoje inibe um gesto de pirataria desta natureza?
FMO: Receio bem que o método da exclusão de partes deixe muita gente incluída.
LM: Também acho. Sugiro antes o Hunter.
CA: O Hunter? E o que é isso?
LM: Um programa informático que permite reconstituir, ao invés, o percurso de um hacker na rede até chegar à etapa final, ou melhor, inicial. Neste caso, a partir das cartas em causa, activa-se o Hunter e ele vai por aí fora a retroceder no espaço-tempo até chegar ao computador do pirata. É infalível. É uma invenção dum puto aqui de Viana.
ABB: Active-se, bolas. Até eu sou já objecto de dúvidas! Pois bem, quero limpar o meu nome! Tem aí o programa?
LM: Tenho, sim. É pra já. [Põe o programa a correr] Lá vai ele… Parece que já deu com o nosso homem… Que, afinal, quem diria?, é uma mulher… Parece que o nosso usurpador é a Clara Antunes…
GR: Não acredito! Isso deve ser pirateado…
CA: Eu… Eu…
MP: Uff! Como vêem, não fui eu!
ABB: Nem eu, carago!
LM: Esperem… Afinal parece que falei demasiado cedo. O programa continua à procura. Pelos vistos, o computador da Clara foi usado como «véu» para disfarçar a progressão do hacker. Calma… Está agora a detectar o nosso homem (agora é que tem de ser um homem)… E o euromilhões é para… o Sr. Oliveira.
OMS: Eu logo vi!
PS: Pois eu estou espantado. Nunca me passaria pela cabeça.
FMO: Eu… Eu…
MP: Uff! Como vêem, não fui eu!
ABB: Nem eu, carago!
LM: Esperem… Afinal parece que falei demasiado cedo. O bicho continua a rabear. Mais um disfarce, pelos vistos… Está a parar. No computador do… Sr. Silvestre.
FMO: Eu logo vi!
OMS: Eu… Eu…
MP: Uff! Como vêem, não fui eu!
ABB: Nem eu, carago!
LM: Esperem… Afinal ainda não foi desta. O programa continua a correr. E corre cada vez mais depressa. Está a parar… Agora é o Sr. Rubim…
GR: Eu… Eu…
MP: Uff! Como vêem, não fui eu!
ABB: Nem eu, carago!
LM: Esperem… Continua a corrida. Agora é o Sr. Serra.
PS: Eu… Eu…
MP: Uff! Como vêem, não fui eu!
ABB: Nem eu, carago!
LM: Esperem… Isto continua. Agora é o Sr. Portela.
MP: Eu… Eu…
ABB: Uff! Como vêem, não fui eu, carago!
LM: Esperem… Isto continua. Agora é o Sr. Baptista.
ABB: Eu… Eu…
MP: Uff! Como vêem, não fui eu!
LM: Esperem… Ainda não acabou. Agora é o Sr….
CA: Então?
LM: Não acredito… Parece que desta vez sou eu!
MP: Uff! Como vêem, não fui eu!
ABB: Nem eu, carago!
LM: Esperem… Uff! Isto continua, graças a Deus. Já estava a enlouquecer. Mas não estou a ver onde é que pode ir agora parar. Já está toda a gente, não está?
OMS: Sim, não vejo quem mais possa ser.
LM: Está a parar… Não pode ser… Não acredito… Ai o grande malandro!
PS: Mas quem é, gaita?
CA: Sim, ande lá com isso. Eu quero saber, e já, até porque fui a primeira a ser incriminada!
LM: Vocês não vão acreditar… A fonte de tudo isto é o computador do… Groucho!
[Silêncio incrédulo]
LM: Eu… Ai o mal agradecido!
FMO: Eu… Ai o raio do mordomo!
CA: Eu… Tão bem que ele sempre me tratou!
GR: Eu… Ai o cabrão!
PS: Eu… Já não se pode confiar em ninguém!
OMS: Eu… Agora é que não volto a acreditar em Deus!
MP: Eu… Que fizemos nós para merecer este apócrifo?
ABB: Eu… Não sei se acredite… Nós a pensarmos que o tipo era um mero factotum nosso e, afinal, é ele a Matrix de tudo isto...
[Ambiente de depressão geral]

Usurpação?

Casmurros,

- Usurpação?
- Ão, ão, ão!
- Violação?
- Ão, ão, ão!
- Tanto eco?!
- Eco, eco, eco.
- Não se calam?!
- Alam, alam, alam.
- Eu não fui!
- Ui, ui, ui.
- Casmurrices!
- Ices, ices, ices.
- Deixem-me em paz!
- Az, az, az.
- Masturbação!
- Ão, ão, ão!
- Bye Bye!
- Ai, ai!

Abraços aços aços,

Manuel Portela

Com franqueza!

A Abel Barros Baptista e aos demais casmurros,

Não há exemplo que nunca empalideça, e não há intelecto que nunca fraqueje! Que decepção, esta última contribuição do Sr. Baptista para o debate! No fundo, o que o dito Sr. veio fazer foi ceder, em toda a linha, àqueles que estão sempre a acusar-nos de nos perdermos em digressões sem fim, de não atacarmos directamente os assuntos e de – pecado dos pecados! – incorrermos em «masturbação intelectual»! Porque no fundo foi disso que o Sr. Baptista nos acusou. Por mim, confesso que nunca percebi a acusação nefanda da «masturbação intelectual». Por duas razões. Porque a acusação pressupõe que a masturbação é criatura esquálida e desonesta – quando na verdade é, como todos sabemos, uma fonte de esquisitos prazeres. E porque transpô-la para o domínio intelectual, sobre ser metáfora arrojada, equivale a alçar a vida intelectual a alturas que ela, sejamos justos, raramente consegue atingir. Quantos livros, quantas ideias, quantos pensamentos nos conseguem proporcionar a gratificação da masturbação? Sejamos justos: muito poucos. Contam-se pelos dedos de uma mão, se é que posso usar esta imagem, aliás muito apropriada à questão.
Era só isto, caro Sr. Baptista.
Cordialmente,

Clara Antunes

Paris Texas

Casmurros,

Poderei sugerir, muito discretamente, que voltemos ao ponto de partida, em vez de nos perdermos nestas intermináveis discussões sobre autorias? É que por esta altura, como se constata, já todos esqueceram que isto começou com um estimulante desafio lançado por mim, em torno de palavras de Camilo sobre Eça. Essa é que é a questão, com mil raios! O «sentido crítico do moderno», as «imunidades de língua» e a debilidade da vanguarda derivada dos solecismos queirosianos! Ainda não é tarde para arrepiarmos caminho e elevarmos a discussão até àquele ponto a que os leitores do Casmurro estão habituados. Ainda não é tarde para regressarmos ao nosso Paris Texas!
Coragem , casmurros, há um mundo a ganhar!
Com toda a sintonia intelectual,

Abel Barros Baptista

Re-defesa da honra

Caríssimos,

Como sabem, pouco mais tem um poeta, em sede ética, do que o rigor e a exigência estética dos seus versos. Que venha agora um espúrio Luís Quintais dizer-me que Luís Quintais assume aqueles versos, é um enunciado que deveria ser suficientemente auto-refutante para me dispensar de mais indignações. Sendo porém o mundo a cloaca que todos conhecemos, vejo-me na necessidade de redefender a minha honra, deixando bem claro que: (i) o meu nome de baptismo é Luís Quintais, (ii) tenho uma resma de livros publicados e mais um para sair na Cotovia, e portanto tenho todo o direito a assinar-me Luís Quintais. Se o usurpador acha que para se assinar tem de me assassinar, isso é com ele.
A mim, cabe-me apenas reiterar que o autor de Uma ajuda, com algum trabalho de campo se não chama Luís Quintais, ainda que diga que lê Stevens com força e gosta de fazer trabalho de campo nas nuvens. Esse outro Sr. Quintais, mais a sua arrogância de «autor», só pode ser mesmo o usurpador que pretendemos caçar. Cuidadinho com ele!
Passar bem, Sr. Quintais,

Luís Quintais

Ponto da situação

Casmurros,

Como já alguém insinuou que eu estaria in partibus para perpetrar as usurpações de que estamos todos a ser vítimas (e nem me refiro às insinuações malévolas sobre um affaire entre mim e a Sra. Antunes…), sinto-me na necessidade de manifestar a minha voz corpórea e fenomenal: eu, Gustavo Rubim, estou a topar-vos, cá do alto, e escusam de pensar que conseguirão escapar ao longo braço da minha ira vingadora! Ela abater-se-á, inexorável, sobre aqueles que confundem autoria com assinatura, assinatura com propriedade, traço com voz, enfim, a justiça com as maquinações do direito!
O Sr. Serra, admitindo que se trate deveras do Sr. Serra, enquadrou muito bem a questão e citou Kierkegaard. Por mim, aceitando o enquadramento, prefiro citar Nietzsche: «Quando não temos um bom pai é preciso inventar um». Alguém está interessado em transformar este clube, aliás decadente, num consultório de psicanálise. Não eu, devo dizer. E, se querem que vos diga, por mim sinto-me tão distante do projecto da invenção de um pai para isto, como de aceitar que passemos a chamar pai a algum de nós. É caso para dizer: vão chamar pai a outro! Até porque, em bom rigor, no princípio não está o pai nem o filho mas o suplemento. Que não é usurpação nem roubo, embora possa ser a assinatura enquanto efeito, diferição, errância de um nome sempre impróprio. Porque a questão é que não há roubo de nomes, apenas impropriedades em forma de nome. Toda esta questão está mal conceptualizada desde o início, e talvez ainda a possamos endireitar se a pensarmos em torno da noção nietzschiana da «invenção do pai», mas sem psicanálise pelo meio. Basta a corrosão da «verdade» assim implicada por arrasto da «invenção do nome».
Disse, e vou dormir.

Gustavo Rubim (que não aprecia brincadeiras com a sua assinatura)

Reiteração

Aos casmurros e a quem interessar,

Pelo rumo que as coisas levam, sinto-me na necessidade de reiterar que sou mesmo o autor da carta A propósito de uma escandalosa usurpação.
Repito, com toda a ênfase que me não está no sangue: Je est Luís Mourão!
Cordialmente,

Luís Mourão

Post Scriptum

Prezados casmurros,

Eu não sei o que leva esse Sr. Quintais a pretender que ele é que é o Sr. Quintais e não eu. Só posso dizer que o meu nome de baptismo é Luís Quintais, tenho uma resma de livros publicados e mais um para sair na Cotovia, e portanto tenho todo o direito a assinar-me Luís Quintais. Se ele acha que para se assinar tem de me assassinar, isso é lá com ele.
A mim, cabe-me apenas reiterar que o autor de Uma ajuda, com algum trabalho de campo se chama Luís Quintais, lê Stevens com força e gosta de fazer trabalho de campo nas nuvens. Esse outro Sr. Quintais, mais a sua arrogância de «autor», só pode ser mesmo o usurpador que pretendemos caçar. Cuidadinho com ele!
Passar bem, Sr. Quintais,

Luís Quintais (poeta publicado)

Defesa da honra

Caríssimos,

Muito brevemente, apenas para informar que também eu acabo de ser vitimado pelo instinto falsificador desse cidadão que, a coberto do anonimato, manifestamente se diverte a fazer incoincidir assinaturas e rostos. Muito embora o texto Uma ajuda, com algum trabalho de campo diga a verdade dos factos – sim, eu vi o Sr. Portela que não era o Sr. Portela a desfazer-se em pixeis! -, sinto-me desonrado pela forma pedestre usada nessa carta. O verso livre não é aquilo, Stevens é demasiado importante para abastardamentos, e não há coisa que mais me tire do sério do que a rima fácil. Por outras palavras, não foi o Luís Quintais quem escreveu aquilo. Faça-se justiça pois esta é a verdade!
Viva a poesia, abaixo o verso martelado!

Luís Quintais

Pedido de clarificação

Aos casmurros e a quem interessar,

Venho por este meio declarar, sem mais rodeios, que não sou o autor da carta subordinada ao título Ainda a propósito de uma escandalosa usurpação, com que um usurpador (o usurpador inicial?) abusou do meu nome para lançar a suspeita, em termos ignóbeis, sobre o Sr. Portela. Aliás, a oportuna intervenção do Sr. Quintais clarificou a questão da autoria e, bem-assim, a da iníqua imputação de heteronímia fraudulenta lançada sobre o insigne director do Teatro Académico Gil Vicente.
É tudo [Se eu apanho o fdp que anda a comprometer-me, juro que lhe f… os c…s!]
Com os meus melhores cumprimentos,

Osvaldo M. Silvestre (seguro de ser o próprio)

Ponderando

À comunidade casmurra, com um envoi para Luís Mourão,

Puta madre, que história! Se não foi o Manuel Portela, quem terá sido? Nesta história há muita gente a morrer pela boca, e ainda mais gente caladinha que nem rato. Aonde pára o Sr. Rubim? Aonde pára a Sra. Clara? Aonde pára o casalinho? Quem sabe se não está aí a resposta à questão da autoria desta maquinação?...
Diga-se que, do ponto de vista conceptual, tudo isto me parece uma ilustração óbvia daquela máxima de Kierkegaard que o Harold Bloom da ansiedade da influência gosta muito de citar: «Aquele que está disposto a trabalhar dá à luz o seu próprio pai». Há aqui um manifesto caso de ansiedade de influência: alguém, de entre a troupe casmurra, está tomado de inveja das neófitas intervenções do Sr. Mourão e, vai daí, decidiu inventá-lo apocrifamente, inventando assim um pai substituto. E inventando-se assim como filho (deslocado) dele. Um romance familiar típico.
Não estou muito convencido, devo dizer, da verdade da identidade do Sr. Baptista no diálogo em que ele se demarca da voz que responde brutalmente ao Sr. Mourão. Para mim, a verdade do Sr. Baptista está antes na Adivinha inconveniente com que brindou à chegada do Sr. Mourão ao clube. O texto em causa parece-me uma típica denegação que visa libertá-lo do fardo da voz do texto mal-educado. E assim, não vejo razão para libertar o Sr. Baptista da suspeita de que possa ser ele o inventor do Sr. Mourão apócrifo. Para mim, aliás, todo este estratagema só o torna ainda mais o suspeito número um.
E, se assim for, é ele quem deve ser defenestrado, pois nesse caso já é de cinismo que falamos.
Disse.

Pedro Serra

Uma ajuda, com algum trabalho de campo

Aos casmurros e a quem mais possa interessar,

Passeava eu com a minha guitarra azul
Sonhando, no cibercéu,
Quando o vislumbrei,
Debruçado sobre o teclado,
Forjando assinaturas
E inventando dados.
«Pixel, Pixel!», cantava ele,
quando chamei «Manel, Manel!».
Virou-se e, olhando-me, perguntou
«Quem és tu, querubim?
Serás tu um tal Rubim?»
«Eu sou o homem da guitarra azul,
faço trabalho de campo
por cirros, estratos e nimbos,
e muito estranho a névoa no teu olhar.
Pois podes tu não te lembrar de mim?
Dos poemas transgénicos que, em febril parto,
Por livros dispersámos, que iluminámos?»
E eis que, do braço, afinal cyborg,
Lhe saltou teclado que digitou
Em frenesi Ctrl + Alt + Del,
Após o que nada mais se viu dele.
«Adeus, adeus, caríssimo Manel,
que afinal não eras ele.
Mas um casmurro 3D,
Um efeito especial,
Um fake digital».
Cuidado, pois, com acusações
Ao Portela original,
Que ninguém sabe onde pára
Criatura tal.
Parasitado, usurpado,
Assassinado pelo digital?
Não vejo como,
sem um Blade Runner,
possamos resolver
este caso assaz complicado.
Cordialmente,

Luís Quintais

Sublinhando

A Luís Mourão, solidariamente,

Faço minhas as palavras de repúdio do infame acto de usurpação da assinatura do neo-casmurro Luís Mourão já proferidas pelos Srs. Silvestre e Baptista. E acompanho-os na imperativa punição do prevaricador. Por estar retirado do século, isso não significa que não vá acompanhando ao longe o que por aí se passa. Nada autoriza a que a minha pastoral se confunda com pusilanimidade moral (para isso já basta o espectáculo do nosso governo ante a crise dos cartoons). Sugiro pois a expulsão imediata do Sr. Portela de ambos os clubes que integra.
Não podemos pactuar com actos que põem em causa a própria essência da ontologia do intelectual. Porque, ao contrário de certos folclores utopistas, a propriedade (intelectual) não é roubo. E a assinatura é aquilo que define propriamente o intelectual: uma indexação apenas, modestamente grafocrática, de um pensamento a um nome, aliás condenado ao anonimato da Biblioteca de Babel. Razão reforçada para a nossa inflexibilidade: expulse-se, pois!
Cordialmente,

Fernando Matos Oliveira (com todas as letras!)

Uma necessária reparação, antecedida de uma contrição

A Luís Mourão e a quem de direito,

Longe estava eu de supor que a carta que suscitou a minha irada resposta não era da autoria da pessoa que a assinava, mas sim de um incógnito outronímico. Não encontro adjectivos para tão inqualificável acto. Ou antes, encontro apenas um: não gostei!
Seja como for devo penitenciar-me pela forma destemperada como reagi a uma carta que, devia sabê-lo de ciência longa, não batia certo com o temperamento da pessoa que, afinal, a não assinava. A pressa é sempre má conselheira. E a precipitação, em sede moral, é especialmente danosa, como mais uma vez se acaba de ver.
Resta a questão da reparação. Se, como tudo indica, esta usurpação tiver sido perpetrada pelo Sr. Portela, só posso sugerir, com a necessária ênfase, a sua imediata defenestração do clube: deste a que já pertenceu, do novo a que se acolheu não há muito. Com coisas sérias não se brinca, e o nome de cada um é o penhor último, ainda que, como se vê, mínimo, da honra pessoal. É nestes momento que temos de ser intransigentes com o dolo.
Cordialmente,

Abel Barros Baptista

Ainda a propósito de uma escandalosa usurpação

A quem de direito,

Não podia concordar mais com as palavras, sóbrias conquanto amarguradas, do Sr. Mourão. É de facto inaceitável que alguém usurpe assinaturas para lançar a cizânia entre membros do mesmo clube. Desconheço, obviamente, quem terá sido o perpetrador desta indigna garotice, mas dada a gravidade da ocorrência sinto-me no dever de avançar um palpite para tentar dilucidar o momentoso caso. O estilo da coisa parece-me em tudo devedor da prática apócrifa de um membro do Casmurro – o Sr. Portela -, especialista em pôr na boca dos membros do clube palavras muito comprometedoras para a sua idoneidade moral e profissional. Ainda há dias, numa fotografia de satélite, ele conseguiu reconhecer-me em companhias duvidosas (!) e em ruas mal frequentadas, sobretudo a certas horas, garantindo urbi et orbe que só podia ser eu quem, de mochila ao ombro, progredia, cosido com as paredes. O caso presente tem a assinatura (se assim o posso dizer…) desse senhor, especialista em forjar assinaturas, fabricar semi-plágios a que chama obras suas, etc.
Aqui deixo pois a minha contribuição para a mais que devida reparação que urge fazer ao senhor Mourão.
Cordialmente,

Osvaldo M. Silvestre (não muito seguro de ser o próprio)

A propósito de uma escandalosa usurpação

A quem de direito,

Julgava eu que tinha aderido a um clube de puros e rectos espíritos, e vejo-me afinal atraiçoado por um infame estratagema: o da usurpação da minha assinatura. Vejo-me pois obrigado a repor a verdade, informando que (i) nada me move contra o quartel da Avenida de Berna, onde aliás se vive um permanente e delicioso estado de PREC; (ii) nada me move contra o insigne Sr. Baptista, tanto mais que (iii) nada me diz o repto que ele me lançou a propósito de umas manhosas «imunidades de língua». Na verdade, pouco me interessam hoje as questões do moderno e do pós-moderno. Dediquei-me a elas em altura em que precisava de fabricar um tomo académico, ainda assim bem mais magro do que o tomo que, para idênticos fins, o Sr. Baptista deu à luz. Continuarei pois a ler Camilo com a mesma solidariedade minhota de sempre e Eça com o mesmo encanto que dedico a todos os que candidamente desrespeitam imunidades de língua.
A usurpação, porém, permanece. Questão ética, antes de jurídica, e ontológica, antes de ética. Agradeço pois que o usurpador, que o terá sido em espírito faceto, se denuncie, para que tudo isto se possa resolver à volta de uma lampreia à borgalesa, forma pundonorosa de evitar o recurso à instância judicial.
Cordialmente,

Luís Mourão (ele mesmo, sem tirar nem pôr)

18 Fevereiro 2006

Reencaminhando a chamada

— Está? Sr. Mourão?..
— Olá, Groucho. Espere só um pouco, deixe-me vir aqui mais para dentro para o quentinho.
— Sábado desagradável, de facto. Já me tinha esquecido de que podia chover e ventar tanto.
— Veja lá, não poupe no gás, aqueça-me essa casa.
— Já sabe da questão das cartas falsas, senhor?
— Recebi há pouco um fax do Sr. Baptista com as missivas em causa.
— Um bocado intrigante, não acha?
— Devo confessar que fiquei um pouco espantado, é verdade. Sobretudo porque por uns breves momentos me perguntei se não tinha sido mesmo eu a escrever a carta...
— Hum, a questão do pastiche perfeito, estou a ver.
— Eu sei que não fui eu, ou melhor, creio saber que não fui eu, mas a verdade é que com a dose necessária de fel (o que me acontece por vezes, tenho de admitir), aquela seria a minha carta.
— Não é do seu punho, mas está na lógica do seu punho...
— E estando na lógica do meu punho, até que ponto não pertence ao meu punho?
— Problema profundo. Que pena não...
(interrompendo) Pior ainda quanto à suposta carta do Sr. Baptista.
— Pior?
— Claro, Groucho. Como não sou o Sr. Baptista, não sei de ciência razoavelmente certa que não foi ele a escrever a carta, e como também aqui o estilo confere...
— Claro, o pastiche parece-nos tanto mais perfeito quanto não seja o pastiche de nós.
— Se não fosse o Sr. Baptista assegurar-me não ser o autor da carta, não duvidaria por um instante da sua assinatura.
— Era o que eu ia dizer há bocado, esse é um dos problemas profundos a que o clube daria guarida de bom grado. É uma pena aquilo estar deserto...
— Não só é uma pena, Groucho, como estas cartas devem estar relacionadas com esse deserto.
— Também presume da autoria das cartas, como o Sr. Baptista?
— Também, Groucho. E encontro-lhes mesmo um motivo: estando o clube deserto, o suposto autor reinventa as vozes, a ver se atrás delas se perfila gente.
(esperançoso) E acha que dará resultado?
— Isso agora...

Chamada de emergência

— Está? Groucho...?
— Ah, é o senhor... não tínhamos combinado suspender os contactos?
— Sim, mas é uma emergência. Passei por aqui, para ver se havia correio, e descubro que anda alguém a falsificar cartas...
— Perdão, qual é a emergência?
— Essa, homem! alguém me escreveu uma carta em nome do Sr. Mourão, e alguém lhe escreveu a ele em meu nome... Já confirmei. Ambas as cartas são falsas.
— Que diabo! Isso é inusitado. Nunca tinha acontecido, pois não?
— Não, nada de semelhante, e acho grave, ou pelo menos lastimável. Ainda por cima, o tom das cartas é do mais desagradável...
— E tem ideia de quem seja o perpetrador da mistificação?
— Uma ideia, sim, mas só isso.
— Então, deixe correr, fique atento, mas deixe correr. Eu falo aqui com o Sr. Mourão.

Passeio quase nocturno: o castelo (3)



— Mas que se passa com esta cidade? Há obras por todo o lado, santo deus.
— É o progresso, Groucho, e desta vez vem programado ou tem nome de programa.
— Ah, essa coisa grega...
— Cuidado aí com essas correntes, chegue-se mais para cá.
— Arre, sente-se bem que chegamos à beira-rio, que humidade!
— Aperte bem o cachecol, veja lá. Apesar do diferendo, acho que ninguém no clube me perdoaria se viesse a adoecer nestas férias.
(esperançoso) Acha mesmo?
— Acho, Groucho, acho mesmo. Mas voltando à história. Temos então que a câmara cá da terra tinha uma maioria confortável e parecia lançada para um novo mandato. E tanto assim era, que pela oposição se apresentou desportivamente um bom candidato perdedor.
— Estou a ver... Pessoa séria, não conhecida na política, que não quer mesmo ganhar, mas que faz o frete ao partido de se queimar naquelas eleições.
— Nem mais. Acontece que a maioria, quase a terminar o mandato, se lembra de propor um grande desígnio para o futuro. Faz contas e mais contas e chega à seguinte conclusão: se em todos os documentos oficiais da câmara, a designação da cidade, em vez de ser Viana do Castelo, passasse a um singelo Viana, poupar-se-iam muitos milhares de contos.
— Sério?!
— Foi o que disseram, e se calhar as contas até estavam bem feitas, sei lá. Além do mais, diziam eles, tratava-se simplesmente de tornar oficial a designação corrente cá do burgo.
— Hum... E depois, que aconteceu?
— A oposição tomou como lema da sua campanha “Por uma Viana com Castelo”, foi o que aconteceu.
— E ganharam?
— Oh-Oh, ganharam sim senhor. Por meia dúzia de votos, contadinhos até às quinhentas da noite, mas ganharam.
— Hum... (pausa longa) De facto... (pausa) Olhe cá uma curiosidade: quando disse Oh-Oh a sua entoação mudou...
— É uma expressão daqui, Groucho, estava a imitar as gentes de Viana.

17 Fevereiro 2006

Respondendo à (suposta) resposta de Luís Mourão

Prezado Sr. Luís Mourão,

Arrisco que o ímpeto debatedor se dá mal com a discriminação necessária dos problemas em discussão. Mas também é bem certo que, perante certas almas infensas à discriminação, nada como o ímpeto debatedor e mesmo, porque não dizê-lo, batedor.
Pretende o meu amigo que o meu post era apenas faceto, quando a verdade é que eu propus à sua consideração e dos leitores – mais destes que de si, é certo, pois terá percebido que o usei como pretexto para chegar àqueles – o magno tema do «sentido crítico do moderno» a propósito de um muito falso elogio de Camilo a Eça. O meu post, se tivesse perdido dois segundos a ponderar todas as implicações que nele se albergavam, era profundo e implicava uma revisão crítica da narrativa do moderno entre nós, que remete Camilo para o sótão das reaccionarices empoeiradas, ao mesmo tempo que puxa o lustro ao busto de Eça. Para perceber isto, e todas as suas tremendas consequências, era necessário que o meu amigo usasse da contenção (e contensão) de espírito indispensáveis à conjugação do verbo «pensar». O meu amigo preferiu vazar em prosa rancorosa o chamado «direito à indignação», essa arma dos narcísicos por procuração.
Porque o meu amigo prefere recorrer ao discurso dos humilhados e ofendidos. É o tópico das anedotas: as anedotas de alentejanos ofendem os alentejanos? Na verdade, não há pessoas ofendidas ou humilhadas — há pessoas que se dizem ofendidas ou humilhadas, que interpretam como humilhação ou ofensa o efeito sofrido e imputam a quem o produziu a intenção de humilhar ou ofender. Interpretar e imputar são duas operações tão falíveis como improváveis.
Resumindo: eu quis honrá-lo com um desafio intelectual para que o supunha disponível e, mais ainda, preparado. O meu amigo respondeu mandando-me abaixo de Braga. Pois fique sabendo que me sinto por cá muito bem e assim tenciono permanecer.
E descanse, que não me intrometerei mais nesse clube de que em boa hora me exilei.
Passar bem,

Abel Barros Baptista

Respondendo a ABB

Prezado Sr. Abel Barros Baptista,

Tomei boa nota da sua interpelação em forma (supostamente jocosa) de Adivinha.
Nada sei de imunidades de língua, coisa muito de escribas de Famalicão. Mas permita que lhe diga que um fundador do clube Casmurro tem a obrigação de muito saber sobre admiráveis defeitos: mais defeitos do que admiráveis, se me permite. Tanto assim que muito tem de penar um recém-colaborador do clube para endireitar uma casa que nasceu torta e, por alguma razão, se encontra praticamente deserta.
Quanto ao resto, isto é, ao seu desafio em forma de sabatina, permito-me lembrar-lhe que isto não é propriamente um exame oral no quartel da Avenida de Berna, nem eu um examinando seu. Já tenho aliás a minha dose dessa homeopatia.
Passar bem, caro Senhor.

Luís Mourão

Ecografia























- Aquém não há quem!
- Nem além há!
- Sem ninguém, ninguém vem!
- Quem vem?
- Vem alguém sem ninguém.
- Vem?
- Sim, vem assim.
- Assim, com a água?
- Com a mágoa?
- Com o som do sim.
- O eco que ecoa.
- E canta.
- Eco ecoador.
- Cantador.
- Que coa.
- Os passos.
- A dor.
- Que bate contra a parede!
- Que cai no chão!
- E ressoa no tecto!
- A sala vazia.
- Quem está?
- Quem está lá?
- Aí, quem está?
- Quem está aí, está?
- E aquém?
- Quem?

Ecolália























- Uma estrela cadente rasgava os céus!
- Rasgava os céus!
- Como se o fizesse apenas pra mim!
- Apenas pra mim!
- E soubesse o que me ia no peito!
- O que me ia no peito!
- O ar estalava à luz escura da noite!
- À luz escura da noite!
- O motor da carne em combustão interna!
- Em combustão interna!
- No zimbório negro um raio de luz!
- Um raio de luz!
- Uma linha de choupos no alto do monte!
- No alto do monte!
- 80 decibéis a vibrar nos tímpanos!
- A vibrar nos tímpanos!
- Ao fundo do cenário as luzes da ponte!
- As luzes da ponte!
- Rasgava os céus uma estrela cadente!
- Uma estrela cadente!
- Trela cadente!
- Ela cadente!
- Cadente!
- Dente!
- Ente!
- Te!

Passeio quase nocturno: o castelo (2)




— Cuidado aí, isto anda tudo em obras, talvez seja melhor mudarmos de passeio.
— Vêm lá dois cães, será seguro?
— Estão com trela, mas vamos aqui pelo meio. Sabe que já não me lembro bem de quando foi a história, mas terá sido pouco antes ou pouco depois do fim do reinado cavaquista.
— Assim tão recente? E mete política dessa?.. Pff...
— Refere-se a umas eleições autárquicas, Groucho, mas não é uma história de política dessa.
— Como não? Lá no clube quase nunca se falava dessas coisas, e com razão, é um real tão pequenino, esse...
— Eu sei, Groucho, eu sei, também concordo que um dos meios de lidar com essa pequenez é não lhe dar precisamente todo o espaço do discurso.
— Ora aí está... Hum, eram grandes conversas aquelas...
— Saudades, não é, Groucho?
— Tenho de confessar que sim. Apesar de tudo...
— Claro, apesar de tudo. É preciso dar tempo... às vezes não resolve nada, mas deve-se dar sempre uma oportunidade ao tempo.
(quase desdenhoso) Pois, e dizer com ar grave: o tempo, esse grande escultor.
(pausa)
— Olhe, Groucho, acabamos de passar a entrada do castelo.
— Era aquilo?
— Precisamente.
— E funciona alguma coisa lá, agora?
— Oh, nem sei bem. A última vez que lá estive, já foi há uns anos, estavam umas salas a ser recuperadas para auditório dos serviços de turismo ou qualquer coisa do género.
— Apoio lojístico, portanto. Algum relevo arquitectónico?
— Que eu saiba não, mas não sou de fiar nessas coisas. O que me parece é que se de repente aquilo desaparecesse, se se evaporasse no ar em recolhido silêncio, ninguém daria conta... é isso que torna interessante a história que lhe estava a contar. Não é exactamente uma história política, e muito menos de política dessa, é antes uma história da força da existência do mapa contra a simples existência do território.
— Outra vez a antecipar as conclusões, senhor?.. (pausa) Bom, conte lá então...
— Sim, Groucho, mas tenha cuidado aí, está tudo esburacado.

(continua)

16 Fevereiro 2006

Passeio quase nocturno: o castelo (1)




— Está bem agasalhado, Groucho? Olhe que isto já desceu aos cinco graus...
— Sente-se, lá isso é verdade. Andemos, andemos.
— Vamos ali contornar o castelo e depois continuamos pela beira-rio.
— Não parece grande, o castelo.
— E não é, além de não ter grande interesse. Mas há uma história curiosa que o envolve, e que é o reverso dessa verdade insofismável de que o mapa não é o território ou de que a palavra pedra não fere.
— O reverso de uma verdade insofismável, senhor? Como assim?
— Então, Groucho, o contrário, o oposto...
— Eu sei o que quer dizer reverso! Agora reverso de uma verdade insofismável...
— Visto da perspectiva completamente oposta, onde mora uma outra verdade que também se pretende insofismável.
— Mas podem ser ambas, ou afinal nenhuma delas é porque existe a outra?
— Acho que depende da história que você quiser contar, Groucho. Era o que eu ia fazer, contar-lhe uma história, uma pequena história...
— As minhas desculpas, senhor. Mas também me parece que começou logo pela conclusão, não pela história em si mesma.
— Mas já vê, Groucho, quando se começa pela conclusão e se conta depois a história, isso quer dizer desde logo que a conclusão não será assim tão conclusiva...
— Põe o desejo de conclusão à frente porque não sabe bem onde a história vai dar, é isso?
— Nem mais. O desejo de conclusão é só para ter por onde começar, que a gente bem sabe como se começa, agora como acabará...
— Bom, parece-me que o senhor é tão digressivo como os outros cavalheiros do clube. Volte lá à história, agora fiquei curioso.
— Está a ver, Groucho, as vantagens da digressão?
— Ou os incovenientes de ir aqui consigo...
— Pois, mas cuidado aí, isto anda tudo em obras, talvez seja melhor mudarmos de passeio.

(continua)

Adivinha


À superior atenção do Luís Mourão:

Num mundo superiormente letrado — seguramente aquele que se seguirá à aplicação, plena e eficaz, do chamado processo de Bolonha —, seria possível, perdão, será possível, aos almanaques de jornal ou aos blogues como este, inserirem desafios, na forma de adivinha, em vez de tópicos de reflexão:


Com que razão se pode afirmar que o sentido crítico do moderno entrou na literatura portuguesa quando Camilo, nas vésperas da publicação em livro do Crime do Padre Amaro e numa carta ao Visconde de Ouguela, disse de Eça: “Este rapaz vem tomar a vanguarda de todos os romancistas. É um admirável observador e conquanto faça pouco caso das imunidades da língua tem a arte de fazer admiráveis defeitos”?

(Note-se o termo vanguarda, mas não é por isso. Que me dizem a “imunidades” da língua? É possível fazer pouco caso delas e ainda assim fazer coisas admiráveis, sobretudo para quem fazia muito caso das “imunidades” da língua? E que arte é essa que produz coisas admiráveis pela violação, pela ignorância ou pelo desdém das “imunidades” da língua?)